Um oásis ético

Um oásis ético

José Renato Nalini*

02 de maio de 2022 | 15h40

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A desertificação do Brasil não é apenas a inclemente destruição da Amazônia e dos demais biomas, senão metáfora para o deserto ético-ambiental em que a sociedade imergiu. O desmanche das estruturas fiscalizatórias, o retrocesso em ritmo acelerado de toda uma edificação que teve início na década de setenta e que contou com apóstolos ambientais como Paulo Nogueira Neto, implica inexistência de defesa possível da biodiversidade e do remanescente de povos indígenas.

A recente apreensão de uma balsa mantida por infratores ambientais que exploravam minérios em área indígena pouco significou, se os seus ocupantes não permaneceram presos sequer por um dia. O que leva a deputada federal Joenia Wapichana a requerer proteção. Os bandidos voltam com tudo. São violentos e incentivados a se armarem. A enorme balsa para garimpo, de mais de trinta metros de comprimento e três andares, é um indício veemente do poder econômico da delinquência.

Sob alegação de que seria difícil levar os sete detidos para deporem na cidade de Altamira, dentro de vinte e quatro horas, o delegado federal os liberou dentro do território Xipaya, no Pará.

Assim é que anda o Brasil, a acumpliciar dendroclastas, a desproteger indígenas, a zombar de quem se propõe a zelar pela natureza devastada e inerme.

Enquanto isso, o Parlamento cuida de orçamento secreto, aumenta os Fundões – tanto Eleitoral quanto Partidário – defende seus integrantes que ameaçam a democracia e extraem da vulnerabilidade moral do governo tudo o que podem saquear das combalidas finanças tupiniquins.

Dentro do cenário catastrófico e verdadeiramente trágico, é confortador saber que Sebastião Salgado, aquele que documenta os crimes perpetrados contra a floresta e seus povos, expõe sua estupenda obra fotográfica e ainda concorda em participar de debates no SESC-Pompeia. Espera-se que tais participações tenham sido documentadas e possam vir a ser assistidas e consultadas pela juventude que precisa se contaminar desse vírus do bem que é a defesa intransigente da natureza.

Também é um alento saber que um descendente do povo praticamente exterminado no período das perseguições violentas aos indígenas, quando da abertura dos seringais no Acre, tenha conseguido congregar cerca de quatrocentas pessoas que hoje habitam três aldeias no município de Marechal Taumaturgo, naquele Estado.

É uma espécie de ressurreição dessa gente que, dizimada pelos brancos, não guarda ressentimento e não olha pelo retrovisor. Haru Kuntanawa é o líder futurista dessa comunidade que pretende cuidar do ambiente e que encontrou na médica americana Margaret Mary Halle uma companheira para essa aventura.

A americana é graduada pelo Oregon College of Oriental Medicine, especializou-se em acupuntura e hipnoterapia e se entusiasmou com o projeto do indígena que hoje é seu marido e pai de seus dois filhos. Na Reserva Extrativista do Alto Juruá os Kuntanawa, da família do marido, pleiteiam cem mil hectares a serem demarcados como território indígena.

Essa área estava quase toda destruída e ameaçada pela exploração ilícita de madeira e pela pecuária que não convive com a floresta em pé. Haru conseguiu promover aliança entre tribos do mesmo tronco linguístico, o Pano, e só pensa no futuro daquela terra dadivosa e exuberante, cuja biodiversidade sequer foi ainda descoberta.

Não quer vingança nem animosidade com os que praticamente acabaram com sua raça. Seu discurso é de paz: “Não podemos ficar presos a guerras e desentendimentos do passado. Precisamos levar dignidade para os povos indígenas, detentores da sabedoria sobre os territórios e a diversidade, mas que não foram incluídos na construção do país”.

A médica e pesquisadora que adotou o nome indígena de Hayra é uma das responsáveis pelo projeto da Associação Cultural e Ambiental Kuntanawa, presidida por seu marido. Com sua expertise em medicina oriental, principalmente chinesa, ela pesquisa plantas da Amazônia, apropria-se da sabedoria longeva dos primitivos ocupantes dessa área e procura integrar todos os tipos de medicina.

A instigante e sedutora história desse casal está no documentário “Ética da Floresta contra o Apocalipse do Capital”, dirigido por Newton Cannito e que integra o longa metragem “Utopia Brasil”.

Nesse filme, Haru defende um debate ecológico suficientemente interessante, para que as pessoas passem a enxergar outros valores, muito além do dinheiro. A ética indígena é um antídoto ao capitalismo selvagem que tanta destruição já causou. “A melhor forma de proteger a floresta é saber que ela é você. Por isso, estamos chamando todo mundo para lutar junto, ser um guardião, um embaixador de uma causa, que é de toda a humanidade”. Enquanto o governo brasileiro pensa em soja, para alimentar animais dos países ricos, transforma o verde em pasto que depois vai virar deserto, o programa “Guardiões da Floresta” convoca aliados em todo o planeta, para proteger as árvores e preservar a biodiversidade. A legítima defesa da Terra exige se coloque a natureza de volta ao centro da vida. O projeto propõe curar as pessoas e curar também o planeta. Alvíssaras! Nem tudo está perdido!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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