Um novo mundo. Preço do petróleo em território negativo

Um novo mundo. Preço do petróleo em território negativo

Roberto Dumas Damas e Daniel Passos Miraglia*

22 de abril de 2020 | 05h30

FOTO: PAUL SANCYA/AP

Que mundo é esse meu Deus? De um lado a pandemia que continua ceifando o crescimento das economias. Do outro a combinação perversa de choque de demanda e oferta, que limita qualquer política fiscal expansionista, dado que o multiplicador keynesiano não funciona sem oferta. Ou seja, não adianta dar estímulos para os indivíduos irem as compras, se os produtores estão isolados e as fábricas paradas.

Nesta segunda-feira dia 20 de abril, o mundo parece que ficou de ponta cabeça. Pronto, agora os terraplanistas irão nos aplaudir. Nada disso, o mercado futuro de petróleo chegou a precificar o barril do produto para entrega física em maio a -US$40/barril. Isso mesmo, não se trata de erro de digitação. O contrato futuro mais curto do barril de petróleo do tipo West Texas Intermediate (WTI), um petróleo mais leve e produzido basicamente nos Estados Unidos, acabou em território negativo no dia de ontem.

Algumas explicações para não acharmos que vão nos pagar para encher os nossos taques de combustíveis daqui para frente:

Desde o último encontro dos principais países da OPEP (Organização de Países Exportadores de Petróleo) liderado pela Arábia Saudita e pela Rússia (não membro da OPEP), os países membros decidiram reduzir a oferta do produto em 9.7milhões de barris dia (9.7mmbd). Se assumirmos que em condições normais de temperatura e pressão o mundo tem capacidade de produzir 100mmbd, esse corte de quase 10% da produção mundial, poderia se ajustar com a queda de demanda mundial. Ledo engano. Estima-se que o mundo esteja demandando de 25% a 30% menos petróleo, ou seja, coisa entre 70mmbd e 75mmbd. Não precisa ser mestre ou PhD em economia para saber que o corte de apenas 10% na produção mundial, para uma queda de 30% na demanda mundial, pouco faria para sustentar o nível de preços da commodity.

Soma-se ao excesso de oferta de petróleo no mundo, a provável utilização quase total da capacidade de estocagem do produto, mesmo em navios tanques que transitam pelo mar, e temos a explicação para uma alta muito forte no custo de estocagem que se reflete em preços negativos no contrato futuro mais curto do WTI.

Segunda-feira, dia 20 de abril, certamente entrará para a história como o primeiro dia quando se alguém tentasse vender petróleo teria de pagar e não receber dinheiro pela transação. O mercado entrou em parafuso pelos fundamentos expostos acima, aliados a falta de experiência de vários operadores de commodities e especuladores. Vários destes operadores estavam comprados em petróleo futuro para entrega física em abril, com a expectativa de que o preço acabasse subindo antes do vencimento do contrato, lhes auferindo lucros.

Mas perceberam (um pouco tarde) que no dia do vencimento desses contratos não existia praticamente nenhuma contraparte compradora e que se não zerassem as posições poderiam ter que receber barris de petróleo “na porta de suas casas”. Exagero. Mas em hubs de estocagem que já estavam completamente tomados até o topo. Vendo que teriam de suportar os enormes custos de armazenagem, ainda ousamos dizer que muitos desses especuladores nunca viram petróleo físico na vida ou tocaram no produto. Esses mesmos especuladores preferiram pagar para vender suas posições de petróleo futuro, ao invés de arcar com a quase impossível logística demandada e o custo de armazenagem do produto que o especulador comprou. E atentem: o mesmo pode ocorrer com os contratos de WTI de junho que vencem em 15 de maio.

Ao final, também não adianta apenas acharmos que os especuladores ou o mercado financeiro sejam os culpados por essa distorção de preço. A oferta de petróleo está maior que a demanda no mundo e pronto. Se o líder da OPEP, a Arábia Saudita e a Rússia decidirem por não protagonizarem mais cortes em suas produções, de modo a atender a menor demanda, certamente o mercado de óleo de xisto dos EUA vai sofrer enormemente. Some-se a isso a expectativa de recessão nos EUA e no mundo para 2020, e certamente podemos esperar uma onda de quebra de empresas produtoras de óleo de xisto dos EUA. O que, não deve agradar muito o presidente Donald Trump.

No último encontro entre os países da OPEP, liderado pela Arábia Saudita e a Rússia, os EUA chegaram a ranger os dentes para o líder da OPEP, ameaçando-os de retirar o apoio militar dos EUA da região. Mesmo cercada por países hostis a Arábia Saudita, como o Irã, Iraque, Yemem, Líbano, etc., parece que o líder da OPEP não demonstrou um receio tal que o fizesse cortar mais ainda sua produção, ajudando assim a economia dos EUA.

Mas movimentos de tal sorte nessas placas tectônicas de esferas de influência, podem acabar minimizando o papel geopolítico e militar dos EUA na região, caso países como a China ou a Rússia decidam dar um passo à frente e proteger a Arábia Saudita de seus vizinhos. Certamente seria uma enorme mudança da política externa dos EUA em relação ao Oriente Médio. Um novo mundo está em formação.

*Roberto Dumas Damas, professor do Insper, mestre em economia pela Universidade de Birmingham (UK) e mestre em economia chinesa pela Fudan University (China); Daniel Passos Miraglia, prêmio USP de excelência em economia e mestre em Finanças com dupla certificação

Tudo o que sabemos sobre:

Artigopetróleocoronavírus

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: