Um novo ciclo para as fintechs pós-covid-19

Um novo ciclo para as fintechs pós-covid-19

Bruno Diniz*

19 de abril de 2020 | 07h00

Bruno Diniz. FOTO: DIVULGAÇÃO

É impressionante pensarmos como um “cisne negro” – termo criado por Nassim Taleb para definir eventos inesperados e raros que alteram a dinâmica do mercado – desmancha completamente nossas premissas e planejamento, nos atirando em um ambiente de extrema imprevisibilidade para o qual praticamente nenhuma planilha ou modelo financeiro estão preparados.

O ano para o segmento de fintech começou muito bem, sendo que os meses de janeiro e fevereiro contaram com grandes rodadas de investimento de neobanks, como o aporte de USD 500 milhões recebido pelo Revolut, e aquisições vultosas como a compra da Plaid pela Visa por USD 5,3 bilhões e da Credit Karma pela Intuit por USD 7,1 bilhões. Porém, em março, com o crescimento exponencial de casos do Covid-19 que levou governos de todo o mundo decretarem quarentena, a perspectiva de continuidade de algum tipo de cenário positivo para os negócios simplesmente desapareceu.

Alguns especialistas, como o fundo especializado em fintechs Finch Capital, sugerem que a fase mais aguda da crise deve durar até o terceiro trimestre de 2020, seguido de um processo de recuperação de até 18 meses. Depois disso seríamos inseridos em um “novo normal”, diferente da realidade que vivenciamos até pouco tempo antes da crise. Um tempo em que novos comportamentos passarão a fazer parte do nosso dia a dia e que deverá alterar sensivelmente as nossas relações interpessoais e profissionais.

Neste momento, movimentos emergenciais dos governos para a distribuição de auxílio (conhecidos como G2P – Government to People), como é o caso do “coronavoucher” aqui no Brasil, estão tendo que ser operacionalizados em tempo recorde, levando ajuda urgente aos autônomos e microempreendedores individuais. E para que este auxílio pudesse ser recebido pela população desbancarizada do país, a Caixa Econômica Federal realizou a abertura de mais de 9 milhões de contas digitais nas primeiras 24 horas do lançamento do benefício. Segundo dados do Banco Mundial, em alguns países emergentes como Paquistão, Peru e Argentina, cerca de um terço da população deverá ser contemplada por programas de ajuda governamental. Nas Filipinas a ajuda pode chegar a cobrir 70% dos cidadãos. Considerando um grupo de 656 milhões de pessoas no planeta vivendo em situação de extrema pobreza, tais programas podem, de fato, salvar vidas.

Contudo, em muitos países a distribuição de benefícios ainda é bastante ineficiente. Nos EUA, por exemplo, é previsto que o auxílio definido pelo governo seja pago através do antiquado método de envio de cheques pelos correios, um mecanismo moroso que envolve, inclusive, o processo de deslocamento físico para a compensação do cheque. Diante deste cenário, está sendo debatido entre fintechs de diferentes países, maneiras de facilitar o processo de distribuição de tais auxílios, em parceria com os governos. Um grupo de fintechs norte-americanas composto pela Marqueta (processadora de pagamentos), Square (companhia focada em soluções de crédito e pagamento para PMEs), dentre outros, criaram o movimento “Let fintech help”, no qual se colocam à disposição do governo para fazer com que esses benefícios cheguem de forma rápida a quem precisa.

Já aqui no Brasil, a Picpay está trabalhando para facilitar a distribuição de outros benefícios. A fintech fechou uma parceria com a prefeitura de Duque de Caixas, no Rio de Janeiro, e com o governo do Estado de São Paulo, para entregar o auxílio criado para pais que possuam filhos na rede pública de escolas e que não estão tendo acesso à merenda escolar nesse período de quarentena.

Perspectivas futuras

Dentre alguns efeitos esperados por esta crise, temos a diminuição das atividades dos fundos de capital de risco. Com as fontes de financiamento comprometidas, algumas fintechs terão que ser criativas para ajustarem seus modelos de negócio e produtos nesta nova realidade, além de buscarem parcerias que possam ajudar na redução do custo de aquisição de clientes. Aquelas fintechs que ficarem estranguladas financeiramente, acabarão aceitando eventuais termos de negócio abaixo do seu valuation atual. Segundo um estudo da Rosenblatt Securities – banco de investimento de Nova Iorque focado em fintechs –, é esperado que os unicórnios do setor percam cerca de 15% do valor de mercado.

Esse cenário acabará deixando algumas companhias passíveis à aquisição por parte de fintechs mais capitalizadas ou, até mesmo, por bancos. A Brex – startup de cartão de crédito empresarial baseada em San Francisco e fundada por empreendedores brasileiros – acabou fazendo três aquisições nesse período. Segundo eles, os negócios estavam sendo discutidos há algum tempo, no entanto, esse ambiente incerto deixou os fundadores das companhias adquiridas mais suscetíveis à venda.

Outro possível efeito colateral da crise é o fim da mentalidade de crescimento a todo custo, que imperava até 2019, dando lugar a um momento de preservação de caixa por parte das fintechs e crescimento mais conservador. É importante considerarmos também que o cenário forçado da “vida remota” que estamos experienciando, refletirá na aceleração rumo a uma maior digitalização das instituições tradicionais, com consequente fortalecimento dos seus canais digitais e da execução de estratégias de redução do número de agências

Todas essas consequências citadas encontrarão, invariavelmente, outras medidas que já estavam sendo tomadas por parte dos reguladores locais para aumentar a competitividade e modernização do setor, como a criação da nova infraestrutura de pagamentos do Banco Central (PIX), a instituição do novo modelo de ambiente de testes para novos modelos de negócio das fintechs (Sandbox Regulatório) e a fácil portabilização de dados financeiros entre bancos e fintechs (Open Banking). Essa parte da equação é um movimento sem volta, que pode sim sofrer um certo atraso em função do contexto atual, mas que irá acontecer e mudará o patamar atual dos serviços financeiros no país.

Assim como hoje olhamos para trás e enxergamos como a crise de 2008 teve um papel importante no estímulo das fintechs no mundo, no futuro olharemos para 2020 e veremos todo o processo de amadurecimento que ele trouxe ao setor, e como consolidou algumas premissas e teses sobre digitalização do mercado e inclusão financeira. Como diria Milton Friedman, prêmio Nobel de economia e expoente do pensamento liberal: “Somente uma crise, real ou percebida, produz mudanças reais”.

*Bruno Diniz é especialista em fintechs, autor do livro O fenômeno Fintech e cofundador da Spiralem, consultoria especializada em inovação para o mercado financeiro

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