Um mês de governo Bolsonaro

Um mês de governo Bolsonaro

Rodrigo Augusto Prando*

01 de fevereiro de 2019 | 12h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

Chegamos, todos, ao fim do primeiro mês do governo Bolsonaro. Geralmente, a avaliação de um governo recém-eleito concentra-se nos primeiros 100 dias de gestão, quando, ainda, existe a tal da “lua de mel” com a opinião pública. Aqui, portanto, não farei tal avaliação, mas, apenas, apontar alguns poucos elementos que reclamam maior atenção.

Fiquei impressionado quando, após uma semana da posse de Bolsonaro, fui procurado por jornalistas que queriam, já, uma avaliação. Afirmei que era demasiado prematuro e que se podia, no máximo, indicar algumas impressões gerais. Depois, fiquei pensando qual o porquê de tamanha ansiedade por parte da mídia e, como hipótese, asseverei que Bolsonaro, em sua campanha, fez uma ligação direta – via redes sociais – com seu eleitorado e simpatizantes.

Esse fato traz um aspecto de nossa “sociedade em rede”: uma hiperconectividade, superficialidade no conteúdo e na forma das informações e mensagens compartilhadas e um sentimento de presenteísmo, de foco excessivo no hoje, no agora, gerando ansiedade e dificuldade e paciência para aguardar o desenrolar do tempo.

O tempo da política, no bojo dos partidos ou das instituições da República, sempre foi mais acelerado, por exemplo, do que o tempo dos intelectuais e pesquisadores, que podem passar anos, décadas, debruçado sobre um tema ou problema de pesquisa.

Na política, o resultado da ação deve aparecer de forma mais célere, no entanto, a política via redes sociais fez com que essa celeridade chegasse a níveis de, quase, velocidade da luz e de contato direto e quebra de qualquer hierarquia entre os indivíduos e grupos sociais. Esse tom dado por Bolsonaro durante a campanha e mesmo depois de eleito tem, agora, seu preço cobrado: todos estão atentos e querem, rapidamente, avaliar, criticar e cobram as respostas dos novos atores da cena política. Por isso, então, os tais dos “100 dias de governo” parecem estar tão distante e demorado.

Já nas ações concretas de Jair Bolsonaro, seu ministério foi constituído com alguns núcleos, a saber: 1) núcleo simbólico (Moro e Paulo Guedes, ambos dão, simbolicamente, ao governo, um lastro de combate à corrupção e de liberalismo econômico); 2) núcleo ideológico (Damares Alves, Ricardo Rodrigues e Ernesto Araújo); 3) núcleo militar (Augusto Heleno, Carlos Alberto Cruz, Floriano Neto, Marcos Pontes, etc.); 4) núcleo político (com Onyx Lorenzoni e os demais ministros); e, finalmente, 5) núcleo familiar e oficioso, com seus filhos sempre presentes.

Nesse primeiro mês, o maior problema teve origem, justamente, do núcleo ideológico, com declarações dos ministros da Educação, das Relações Exteriores e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Damares, por enquanto, é a primeira a balançar, com questões ligadas às suas titulações (ou não) acadêmicas e da adoção de uma criança indígena. Em aspectos positivos, destaca-se a boa interlocução, internacional, de Paulo Guedes no Fórum de Davos. Sergio Moro, por exemplo, parece um tanto desconfortável e, talvez, as questões atinentes a Flávio Bolsonaro, Queiroz e Coaf não lhe deixem com seu discurso e prática jurídica tão livre como há pouco tempo.

Outro ponto, a meu ver, que merece destaque foi a comunicação do governo, que se iniciou errática e com muito ruído e confusão. Alguns colegas, conhecedores de táticas e estratégias militares, afirmaram que isso era deliberado, muito usado para confundir o inimigo.

Aí, para mim, reside o problema: nem a sociedade e nem a imprensa estão em guerra contra o governo e se o governo entende dessa forma, há incompreensão dos pilares da democracia e da transparência do poder público em relação à sociedade.

Felizmente, ainda que com certa demora, o governo já tem um porta-voz oficial e, ao que parece, bastante competente. E, surpresa para muitos, o papel do vice-presidente, general Mourão, que, na ausência de Bolsonaro, dialogou com a imprensa e se saiu muito bem, tendo agendadas futuras entrevistas para a mídia internacional. Ainda na dimensão comunicacional, os discursos de Bolsonaro, na posse e em Davos, deixaram muito a desejar, especialmente pela superficialidade e palavreado e ideias mais afeitas à campanha eleitoral do que à liturgia do cargo.

Nesse primeiro mês, o governo não pode ser considerado como portador de um “estelionato eleitoral”, como se deu com a reeleição de Dilma. Até aqui, Bolsonaro e seus ministros caminham naquilo que já haviam verbalizado anteriormente.

Com isso, que se fique claro, não estou afirmando que as ações são boas ou más, mas que são condizentes com o que se sabia de antemão. A flexibilização das regras para posse de armas de fogo foi feita, mas frustrou aqueles que gostariam, inclusive, do porte de armas para o “cidadão de bem”.

Durante a campanha, Bolsonaro e os bolsonaristas foram antipolíticos e, agora, entendem que ganhar é uma coisa e governar é outra. Dito isto: estão, aos poucos, se acomodando nas velhas estruturas políticas e fazendo concessões objetivando governabilidade e força no Congresso Nacional (na aliança com partidos e não apenas com bancadas temáticas e nas eleições para a presidência da Câmara e o Senado).

Outras ideias e projetos parecem em “stand-by”: a mudança da embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém (pela repercussão negativa no mundo árabe e possíveis prejuízos para nossas exportações) e a flexibilização das regras para licenciamento ambiental (essa por conta do rompimento criminoso da barragem em Brumadinho).

Enfim, faltam dois meses para os “100 dias de governo” e para uma avaliação mais criteriosa. Como dito acima, alguns poucos elementos foram destacados e que merecem atenção e continuarão merecendo.

Uma personagem – vale ressaltar – esteve ausente neste cenário: as oposições. O PT, com seu capital político combalido, fez críticas miúdas e a suposta oposição distante e independe dos petistas, com Ciro, Marina, entre outros, ainda não deu o ar da graça.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Bacharel e licenciado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia, pela Unesp

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