Um líder negativo

Um líder negativo

Carlos Fernando dos Santos Lima*

20 de junho de 2020 | 03h30

Carlos Fernando dos Santos Lima. FOTO: DIVULGAÇÃO

O líder de um país, diante do desastre inevitável, enfrentará a adversidade sem medo e com todos os recursos possíveis, e não a negará em uma cegueira proposital; irá ajudar os mais necessitados, e não ignorá-los; irá consolar os que choram seus mortos, e não escarnecer deles; e, principalmente, unirá o país contra o mal, e não estimulará desavenças e rivalidades como forma de governar.

Vivenciamos agora um desses desastres naturais, a atual pandemia do coronavírus, tão inevitável quanto um tornado ou tsunami. É uma peste de proporções bíblicas que irá contaminar milhões de pessoas, possivelmente matando mais de um milhão de pessoas por todo o planeta.

Certamente não será tão mortal quanto a gripe espanhola do começo do século passado, que matou entre 17 a 50 milhões de seres humanos em todo o mundo, pois os avanços da medicina e a globalização dos esforços de combate às pandemias resultam em terapias mais efetivas, especialmente a produção de vacinas em escala industrial em relativo pouco tempo.

Entretanto, a pandemia não poupa a falta de liderança. Em alguns países a onda da atual covid-19 matará mais que a da gripe espanhola de 1918. Dentre esses países que lidam de forma inconsequente com a doença está certamente o Brasil de Jair Bolsonaro. Os números não deixam dúvida, pois, enquanto no Brasil aquela pandemia matou entre 35 mil a 100 mil brasileiros, o coronavírus caminha para fechar este mês de junho, ainda na curva ascendente da disseminação da doença, próximo a 60 mil mortes.

Se podemos falar em alguma liderança por parte de Jair Bolsonaro nessa crise, ela foi quase exclusivamente negativa. Incapaz de qualquer grandeza pessoal, Bolsonaro vê no coronavírus um inimigo político, como se o vírus criado pela natureza, ou pelos comunistas chineses, na versão terraplanista, existisse para lhe fazer oposição. Sua tibieza é tamanha que prefere virar as costas para a população, imputando os males da falta de coordenação federal ao combate à doença ao STF, governadores e prefeitos.

Nesse sentido, estamos há mais de 30 dias sem um ministro da saúde, pois Bolsonaro, ao perceber que não convenceria um especialista em saúde em endossar seus palpites, preferiu chamar um general da ativa que lhe obedecesse ordens. Assim, no mesmo dia que o FDA, órgão similar a ANVISA nos Estados Unidos, revogou a autorização emergencial do uso da cloroquina para o combate à covid, nosso Ministério da Saúde orientou seu uso para grávidas e crianças.

O que Bolsonaro não suporta é a ideia de ver seu governo desmoronar por conta da pandemia. Acostumado a abusar da mentira e desinformação, o presidente e seu gabinete do ódio transformam doentes em culpados, mortos em vilões, profissionais de saúde em opositores de seu governo, bem como incentivam notícias falsas colocando em dúvida estatísticas do seu próprio governo, na esperança de convencer a população de que são vítimas de alguma conspiração.

O que se exigia do governo federal era que agisse na sua competência constitucional, como estabelecido pelo STF, de coordenação das ações antipandemia no Brasil, tarefa essa que até estava sendo realizada com alguma eficiência pelo ex-ministro Mandetta. Poderíamos ter trabalhado como um todo, como um país, na aquisição de respiradores, na transferência de equipamentos e instalações provisórias entre as regiões na medida dos avanços da doença, ou simplesmente ter programas eficientesde ajuda aos mais necessitados e de crédito para empresas.

Entretanto, o que se viu na ajuda emergencial foi um total desprezo pelas estruturas capilarizadas de assistência social nos estados e municípios para privilegiar uma estrutura federal incapaz de oferecer o necessário atendimento para a população. O crédito, da mesma forma, não tem chegado às pequenas e médias empresas, pois os idealizadores do programa esqueceram que a conta da inadimplência é determinante para a concessão de empréstimos. E nem se fale das micro-empresas e empresários individuais, que foram simplesmente desdenhados pelo ministro da economia Paulo Guedes.

Agora, graças àquilo que o bolsonarismo mais odeia, a ciência e a globalização de esforços, surgem esperanças para o alívio da pandemia, como a dexametasona, que diminui a mortalidade entre pacientes graves, ou a vacina de Oxford, que preveniria novos casos. Ainda há muito a ser feito, pois a covid-19 tornar-se-á endêmica. Temos que navegar os meses que faltam para essas promessas poderem ser confirmadas e chegarem à população, mas precisamos principalmente do governo alguma sinalização de que temos um plano de recuperação da nossa economia.

Cabe então a Bolsonaro não atrapalhar. Que fique no seu cercadinho fazendo bravatas para o delírio da extrema-direita obscurantista. E que Guedes justifique sua posição e negocie com um Congresso um plano que dê alento para o futuro. Estamos todos cansados da quarentena, ansiosos para um retorno ao trabalho, aos estudos, aos amigos, amores e familiares, enfim, ao mais próximo da normalidade que conseguirmos. E como não temos uma liderança que nos auxilie nessa transição, teremos que rezar para que o presidente não nos empurre ainda mais para o fundo do poço.

*Carlos Fernando dos Santos Lima, advogado e procurador aposentado, ex-integrante da Lava Jato do MPF/PR

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