Um jovem coroado

Um jovem coroado

José Renato Nalini*

26 de maio de 2022 | 09h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Os duzentos anos da Independência vão gerar estudos, ensaios e eventos. Talvez ninguém se lembre de mencionar a coroação litúrgica do Primeiro Imperador do Brasil, o jovem proclamador da libertação pátria.

Ela ocorreu em 1º de dezembro de 1822, eternizada no Arquivo Nacional, sob o título “Cerimonial da Sagração e Coroação do Imperador Pedro I, na Capela Imperial de Nossa Senhora do Monte do Carmo do Rio de Janeiro pelo Bispo Capelão-Mor”.

O documento é assinado por José Bonifácio de Andrada e Silva e pelo bispo Monsenhor Fidalgo, além do franciscano Frei Antonio d’Arabida, educador do Príncipe. Consta de 87 itens, relatando todos os detalhes da cerimônia. Nada de novo, pois desde 1596 existia a previsão no Pontifical Romano, elaborado pelo Papa Clemente VIII, completado e 1644 por Urbano VIII e em 1752 por Bento XIV.

O Imperador jejuou por três dias e foram convocados todos os bispos do Reino. Houve salva da artilharia, que ao amanhecer anunciou a festa. A rua da Cadeia, depois rua da Assembleia, foi destinada à ida das carruagens em direção ao Palácio e à Catedral e a rua de São José para a volta. Carroças e carros não poderiam transitar nas imediações. A Família Imperial se trasladou no dia em elegante cortejo do Paço da Quinta à cidade.

Algo interessante, narrado por Monsenhor Guilherme Schubert, no livro “A Coroação de D.Pedro I”, é que as Rainhas de Portugal não são coroadas desde que sua coroa foi entregue a Nossa Senhora da Piedade, na Capela do Calvário, dentro da Basílica do Santo Sepulcro.

O cetro e a Coroa, hoje abrigados no Museu Imperial de Petrópolis, quase foi fundida com o golpe republicano. Um funcionário anônimo se recusou a fazê-lo e, por isso, hoje crianças e jovens podem admirá-la. É uma coroa de ouro de mais de 22 quilates, de cuja auréola nascem oito florões, encimados pela cruz da Ordem da Cruz de Cristo. Foi obra de dois artífices brasileiros: Manuel Inácio de Loiola, estabelecido à rua dos Ourives, 12, atual rua Miguel Couto, sob a orientação do também fluminense Inácio Luís da Costa.

Nove rosas de brilhantes adornam a coroa. Um total de 216 brilhantes, não entrando nessa conta o maior deles, solitário na auréola com cinco linhas de diâmetro. O Imperador também tinha um cetro de ouro, com oito palmos de altura e uma polegada de diâmetro, com cimalha sobre a qual se colocou um dragão alado.

A ação litúrgica era esmerada: iniciava-se com o interrogatório: antes de iniciar a missa, o celebrante perguntou aos bispos assistentes se o candidato é digno do cargo de Rei. No caso, de Imperador. Em seguida, lê-se uma instrução sobre os deveres próprios do cargo. O Imperador presta o juramento de cumprir tais deveres.

O juramento consistiu na leitura do seguinte teor: “Eu, Pedro Primeiro, pela graça de Deus e unânime vontade do Povo, feito Imperador do Brasil e seu Defensor Perpétuo, juro observar e manter a Religião Católica Apostólica Romana; juro observar e fazer observar, constitucionalmente as Leis do Império; juro defender e conservar, com todas as minhas forças, a sua Integridade. Assim Deus me ajude, e por estes Santos Evangelhos”.

Terminado o juramento, o celebrante proferiu solene benção, em que evocou os grandes dirigentes do Antigo Testamento e Cristo, vitorioso pela cruz sobre o reino do demônio. Após isso, a unção: como em vários sacramentos, batismo, crisma, ordem e atendimento aos enfermos, uma unção expressa o fortalecimento do fiel pela graça e assistência divina. O Imperador também foi ungido. Com óleo dos Catecúmenos, o bispo o sagrou com o sinal da cruz na articulação da mão direita, do braço direito e entre as espáduas. O Imperador se ajoelhou e assim permaneceu durante a Ladainha de Todos os Santos, invocados para que inspirassem o Imperador com suas virtudes, o protegessem e recomendassem a Deus, para o exato e fiel cumprimento de seus deveres de governante.

Só então a coroação. O celebrante entregou ao Imperador ajoelhado a espada que, como a coroa e o cetro, estava colocada sobre o altar, cingindo-o com ela. Este a desembainhou e fez com ela alguns movimentos no ar, em forma de combate, dando no fim até a impressão de limpá-la, correndo-a sobre o braço esquerdo. Após, torna a embainhá-la.

O celebrante tomou do altar a coroa, passou-a aos bispos assistentes e todos os três a colocaram em ação conjunta na cabeça do Imperador, pronunciando a oração: “Para que te dignes abençoar este eleito para ser coroado Imperador”. O coro respondeu: “Te pedimos, ouve-nos!”. Também o cetro é entregue. E o Imperador sentou-se no trono, tendo sequência a celebração da missa.

Houve um sermão. O pregador, franciscano, falou sobre a religião e o Império, enaltecendo essa vinculação tão íntima e duradoura: “Nunca a religião se apresenta com maior soberania, com todos os atributos de seu Poder e de sua glória, do que quando os reis, os poderosos do mundo, conhecendo sua fraqueza, vão procurar aos pés dos altares esta força, que nem o nascimento, nem a política, nem o entusiasmo dos povos lhes podem comunicar”.

Expressão literal e típica da teoria do direito divino do monarca. Ideia que legitimou inúmeros soberanos. E que perdura até nossos dias! Invocar Deus dá votos!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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