Um grito parado no ar

Um grito parado no ar

Ricardo Viveiros*

18 de junho de 2021 | 14h00

Ricardo Viveiros. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

O exercício do poder é um ato de coragem. Principalmente, por ser algo que, em última instância, é solitário. E, quase sempre, muda a essência de quem o exerce. Na peça “Antígona”, clássico teatral do grego Sófocles, escrito por volta de 440 a.C, está a máxima de que só se conhece verdadeiramente um homem quando ele exerce o poder e executa as leis. Na observação que fazemos dos políticos antes e depois de eleitos, tal pensamento comprova-se ao longo da história.

O candidato tem um discurso, o eleito tem uma prática. A pessoa é a mesma, os atos dela muitas vezes não. E qual o motivo? Muito simples, a campanha permite o sonho do candidato e o de seus eleitores. O exercício do poder já exige o entendimento realista dos cenários em cada momento, porque administrar é obter os aliados necessários à governabilidade, evitando os oportunistas sempre de plantão. O grande desafio do administrador público reside em negociar apoio para exercer o poder na sua plenitude, mas sem fugir aos compromissos de campanha feitos com os que o elegeram. E também sem faltar aos seus próprios princípios e ideais, quando existem.

São 36 anos de democracia, uma árdua e sofrida vitória de todos nós. É incontestável a importante participação que a sociedade brasileira teve no processo de reconquista da liberdade. E temos justo orgulho disso. Entretanto, com triste ironia, o que se verifica no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, com honrosas exceções, são retrocessos que não combinam com a luta por uma plena reconstrução do Estado de direito.

Quando não há saúde, emprego, educação, segurança, cultura e, em especial, respeito, e em igualdade para todos, também não há democracia plena.

Os mais velhos, que viveram os anos cinzentos da repressão, são capazes até de engolir incompetência administrativa do Executivo, atitudes levianas do Congresso e equívocos de julgamento do Judiciário, sempre tendo viva na lembrança as tristes e ameaçadoras imagens dos anos de chumbo. E os jovens que apenas conheceram estas últimas décadas, o que estamos lhes ensinando? Saberão eles, amanhã, dar o devido valor à democracia, defende-la quando necessário?

O que vemos acontecer no País? O Governo segue sem rumo, e sem medo de ser infeliz. Quem se comporta dessa maneira, precisa “inventar” o suficiente para encobrir o que está devendo à sociedade. O Banco Central volta a elevar a taxa de juros, supostamente para impedir a inflação. A medida reduz demanda, não estimula investimentos, encarece o crédito, trava a produção, complica a questão fiscal do próprio Governo. A taxa real de câmbio está alta, tanto quanto o desemprego. Não há crescimento econômico sustentado.

Por que não reduzir os gastos públicos, equilibrando as contas do Governo e evitando que o remédio contra a inflação seja tão forte que acabe matando o doente? Não. Ao contrário, o que se vê em toda parte é o cumprimento do velho ditado baiano: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. O balaio de gatos que é a base aliada do Governo que o diga, sempre ávida por emendas que lhe permitam ações demagógicas e eleitoreiras.

Não questiono o mérito de algumas poucas ações, encoberto por muitas lamentáveis ações. A questão da falta de planejamento, estratégia e responsabilidade no trato da pandemia da Covid-19, postergando importantes medidas, já causou quase meio milhão de mortes. Eis a pergunta que boa parte dos brasileiros tem entalada na garganta: Os poderes constituídos que representam os nossos interesses estão pensando em nós? Eis a resposta: Não.

Temos uma grave dívida social a ser resgatada. Um País que ainda precisa lutar para que a fome seja zero, necessita de investimentos, de produção, de desenvolvimento. Fatores que geram empregos e permitem ao povo vencer a miséria com a dignidade do seu próprio sustento, sem paternalismos. Sem deixar que, como disse o inesquecível publicitário Carlito Maia, a Nova República seja a mãe da velha.

Nosso justo, triste e revoltado pesar precisa levar o Governo à reflexão. Não podemos mais seguir ignorando os fatos, acreditando nos sonhos de campanha como se eles num passe de mágica tenham se realizado, ignorando a dura realidade. Há um grito de insatisfação que está nas casas e não nos palácios, que sai do coração dos desesperançados e não entra na mente dos governantes que vivem na solidão do poder.

Há, como disse corajosamente Gianfrancesco Guarnieri na sua metáfora teatral de 1973, “Um grito parado no ar”. É tardia a hora de escutar o povo. Mais trabalho, menos discurso. Mais gestão, menos campanha política.

*Ricardo Viveiros é jornalista, escritor e professor. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e autor de vários livros, entre os quais Justiça Seja Feita, A Vila que Descobriu o Brasil, Pelos Caminhos da Educação e O Poeta e o Passarinho

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