Um filme de horror

Um filme de horror

Carlos Fernando dos Santos Lima*

23 de fevereiro de 2021 | 15h20

Carlos Fernando dos Santos Lima. FOTO RODOLFO BUHRER/ESTADÃO

Usar empresas estatais para fins políticos sempre foi, infelizmente, o enredo básico de nosso pseudo-capitalismo, a forma de organização econômica cabocla que se caracteriza pelo populismo das decisões de governo, e não pela boa gestão econômica; pelo compadrio e não pela boa governança e conformidade ética; e pelos seguidos desastres econômico-financeiros, que são, ao final, suportados pela população na forma de inflação, impostos e maus serviços públicos. Já assistimos isso na maior estatal brasileira, a Petrobras, com as revelações da operação Lava Jato, e agora corremos o risco de ver novamente esse mesmo filme com a intervenção descabida de Bolsonaro na mesma estatal.

É lamentável que no Brasil pouco aprendamos com os erros do passado. Instrumentalizar empresas estatais para que sirvam a interesses políticos momentâneos, desviando o foco da atenção dos reais problemas econômicos, sempre foi tática comum do lado de baixo do Equador. E mesmo não havendo história de sucesso desse tipo de política, os populistas de plantão, como se descobrissem a pólvora, voltam-se de tempos em tempos para essa solução, como se pudessem mudar a realidade apenas pelo exercício de sua vontade política.

Desviar uma empresa estatal da boa governança, fazendo-a assumir os custos da má gestão da economia pelo governo, é não só abrir as portas para a sua derrocada financeira, mas também para que outros interesses menores, mesquinhos e até mesmo ilegais se imiscuam na gerência do empreendimento. A porta que se abre com a ingerência política é a mesma que faz a corrupção entrar, abancar-se e passar a dar as cartas na administração do negócio. Não bastasse os bilhões perdidos em valor de mercado com anúncios destemperados e despreparados, abandonar gestões profissionais e independentes é o caminho para novas perdas como as que aconteceram no passado recente.

Dizem que o segundo melhor negócio do mundo é uma empresa petrolífera mal administrada, mas o mundo está mudando e o negócio de combustíveis fósseis está fadado a ser substituído. Não podemos, como nossa história é pródiga de exemplos, deixar de aproveitar adequadamente os bons momentos econômicos para impulsionar nosso desenvolvimento. A Petrobras é uma grande empresa, ainda competitiva, que possui quadro técnico excepcional e tecnologia de ponta. Arrastá-la para seguidas crises financeiras por conta de gestões populistas, ineficientes ou corruptas é um crime contra os brasileiros. Nem sempre a história se repete como farsa. As vezes ela mais parece um filme de horror.

*Carlos Fernando dos Santos Lima é advogado e ex-integrante da força-tarefa da Lava Jato

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.