Um decálogo para uma nova década

Um decálogo para uma nova década

Alexis Pagliarini*

06 de fevereiro de 2021 | 17h30

Alexis Pagliarini. FOTO: DIVULGAÇÃO

Já entramos no segundo mês de um ano que se mostra tão desafiador quanto 2020 e exige muita atenção. Isso embotou um pouco o fato de que 2021 é também o início de uma nova década. E como será essa nova década?

A necessidade de se lidar com as adversidades de 2020 nos levou a acelerar processos imaginados para próximos anos – ou décadas. Há quem diga que se fez em 10 meses o que se previa fazer em 10 anos. Mas não devemos confundir necessidade imediata com visão de longo prazo.

Se queremos manter nossos negócios ou nosso trabalho, devemos levantar o olhar para além dos próximo 365 dias e mirar as tendências dessa nova década. Com esse desafio em mente, me arrisco a gerar um decálogo que, na minha visão, deverá nortear os próximos 10 anos.

Vamos lá: 1– Criativismo. Espera-se mais ativismo nessa década, principalmente o ambiental. Pessoas e empresas deverão se engajar mais na luta por sustentabilidade e por uma sociedade mais justa e igualitária. Por minha conta, acrescentei o lado criativo nessa história. Ou seja: fazer um ativismo mais criativo, de menos confronto e polarização e de mais proposição.

2- Empregos, não; trabalho, sim! Sim, uma consolidação marcante dessa nova década (e das próximas) é o decréscimo do emprego com carteira assinada, que deverá dar lugar à remuneração por tarefas executadas.

3– Gen Z X Gen V. Você já se deu conta que os nascidos no novo milênio estão alcançando a maturidade em 2021? Essa tal Geração Z não se encanta com a inovação tecnológica constante; ela simplesmente vive essa inovação com a naturalidade de quem já nasceu com a internet consolidada e com um celular na mão. Como lidar com essa geração? Em lado oposto, temos a Geração V, que tomei a liberdade de criar. Geração V é a geração dos vovôs e vovós. Com o aumento da expectativa de vida, temos que dar muita atenção aos sessentões e setentões, que agora não ficam mais arrastando chinelos pela casa. Ao contrário, são grandes consumidores, com uma vida ativa e plena por muito mais tempo. Ambas essas gerações merecerão muita atenção!

4- High Tech X High Touch. Se, por um lado, esta década marcará um avanço tecnológico em ritmo nunca visto, por outro, crescerá a preocupação com as relações humanas e com a paz interior. O 5G e a internet das coisas permitirá uma sociedade ultraconectada. Equipamentos vestíveis monitorarão nossa saúde (aliás já o fazem hoje, por intermédio dos smart whatches). Realidade virtual ou realidade aumentada já fazem parte das nossas vidas. A comunicação virtual estará cada vez mais acessível e de qualidade crescente. Mas, junto com essa facilidade toda da alta tecnologia, vem a preocupação com as relações interpessoais e com o desejo de uma vida mais simples, sem intermediação de máquinas e telas. Como contraponto a essa miscelânia tecnológica, muitos procurarão mais relações ao vivo, olho no olho. Procurarão comida menos processada, orgânica, natural. Cobrarão por igualdade e inclusão, exigindo mais respeito à diversidade. E cuidarão da mente e do espírito com mais intensidade.

5- (R)evolução político-social. Junto com o crescimento de uma migração desordenada e com crises econômicas, veio o recrudescimento da xenofobia e o reaparecimento de líderes governamentais com cacoetes fascistas. Depois dessa época de trevas, prevê-se um renascimento, como aquele pós-Idade Média, com um neo-iluminismo e antropocentrismo, marcado por maior sensibilidade social e respeito ao ser humano, seja ele seu compatriota ou aquele que vive do outro lado do mundo.

6- Big data X LGPD. Os dados são o novo petróleo. Não à toa, as empresas com maior acesso a dados estão entre as mais valiosas do mundo. Porém, junto com esse poder de captação e processamento de dados vem a preocupação com seu uso indevido. É crescente essa preocupação em todos os cantos do mundo e espera-se maior regulação e controle por parte dos governos. Um efeito colateral desse controle é também a taxação dessas megacorporações, cujo faturamento supera o PIB de muitos países.

7- A única coisa que sei é que nada sei. A educação será uma preocupação crescente nessa década. Como educar crianças com acesso a um oceano de informação em poucos cliques? Para que longos anos de formação em bancos de escolas se a Inteligência Artificial terá respostas prontas a quase todas as questões? Por outro lado, a velocidade da inovação exigirá das pessoas uma educação contínua. Que entendam a necessidade de desaprender coisas e aprender novas, o tempo todo. A única coisa que não muda é a certeza da mudança. Quem não tiver desapego às suas crenças, terá dificuldade de conseguir um lugar ao sol no ambiente cada vez mais competitivo e mutante no campo do trabalho e do empreendedorismo.

8- Aqui, ali, em qualquer lugar. Com a consolidação do home office, impulsionada pela pandemia do Coronavírus, o local de trabalho se torna algo fluído e flexível. Na verdade, o home office dá lugar ao anywhere office. Ou seja, podemos trabalhar de qualquer lugar. Basta ter acesso a uma boa conexão e aparelhos adequados. Será também a década de profundas modificações na mobilidade urbana, com veículos autônomos se tornando realidade.

9- Adeus CO2! O crescimento das fontes de energia alternativa, sem emissão de CO2, será marcante na década que se inicia. Não será nessa década o fim da emissão de CO2, mas o uso do material fóssil, sujo e poluidor, terá seus dias contados. Todas as montadoras de automóveis privilegiarão o carro elétrico, prevendo-se o fim da produção de carros movidos a combustíveis fósseis até o final da década. O crescimento de uso de energia eólica, solar, de células de hidrogênio e de energia alternativa em geral será exponencial, criando infinitas oportunidades para empresas e países antenados.

10– Quem não se comunica, se trumbica. Sendo um profissional de comunicação, não poderia deixar de fechar este decálogo com uma alusão a essa especialidade. Sabe-se que mais de dois terços dos problemas, sejam eles de qualquer natureza, são decorrentes da má comunicação, ou da ausência dela. A boa comunicação será cada vez mais fundamental nesta década. Com o crescimento vertiginoso do acesso às pessoas e das possibilidades de engajamento, a comunicação será menos unilateral. Não bastará emitir comunicação, será preciso trazer o interlocutor para perto, não apenas como um receptor da mensagem, mas também como um coparticipante dela. E o rigor da verificação da veracidade da informação será vital para se evitar as famigeradas Fake News, o que dará longa vida aos veículos de comunicação sérios e ciosos da verdade e da independência da informação. Encerro meu decálogo com otimismo, na esperança de que o homem saberá fazer desta década que se inicia um período de inflexão para um mundo melhor.

*Alexis Pagliarini é presidente executivo da AMPRO – Associação de Marketing Promocional

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