Um certo Steve Jobs

Um certo Steve Jobs

Cassio Grinberg*

03 de abril de 2021 | 10h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Isso vem de antes da pandemia: a mudança de paradigma da hierarquia. Também chamado de mudança de patamar de diálogo, as empresas entenderam que, do ponto da comunicação interna, sai a figura do diálogo vertical “eu mando, você obedece”, para entrar em cena o diálogo horizontal: “eu e você construímos juntos”.

Do ponto de vista externo, ou seja, da relação das empresas com os clientes, o diálogo horizontal se materializa em um atributo tanto central quanto infalível: o da transparência. Atributo que não quer dizer que os clientes decidirão pela empresa, mas que define que a empresa seja transparente com relação ao impacto de suas decisões. No caso da Apple, por exemplo, empresa mais valiosa do mundo, ter sido clara em comunicar que os iPhones não viriam mais com carregador.

Quem trabalha com edição de imagens sabe que existe, nos softwares, um mecanismo de transparência: com filtro variando de 0 a 100%, ele torna as imagens perfeitamente claras ou totalmente escuras.

Precisávamos tirar urgentemente o filtro do mundo.

Me lembro quando Steve Jobs lançou o MacBook Air, no final de 2007, que uma das surpresas era que ele viria sem drive de CD. Aquilo não fazia sentido, todas as pessoas ainda usavam CDs, mas Steve já tinha a visão dos primeiros passos do streaming. E o produto era a concretude dela.

Quando uma empresa tem uma visão desafiadora, decorrente de um propósito claro, decorrente de um posicionamento inteligente, a comunicação já sai horizontal. E qualquer pessoa do time já se sente recrutada. Estamos sendo arrastados por duas doenças paralelas nesta pandemia: a do vírus, e a da vaidade. Que nos leva a sermos conduzidos não por uma visão, mas por uma confusão. E que nos leva a nos sentirmos recrutados por, e para, coisa alguma.

Isso estava claro desde o início, mas agora está escancarado: um juiz quer se sentir mais importante que um Governador, e crianças ficam sem escola. Um Presidente quer se sentir mais importante que um ministro, e vacinas só são encomendadas quando despenca a métrica de aprovação.

Falta ao mundo (não apenas ao Brasil), neste momento, um certo Steve Jobs: alguém que não necessariamente tenha que ser um líder carismático. Mas que tenha visão e transparência o suficiente para nos fazer acelerar em direção à cura, já que parece que pelo menos já estamos na estrada certa.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.