Um catecismo conservador

Um catecismo conservador

José Renato Nalini*

11 de abril de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Os rótulos nem sempre correspondem ao conteúdo. Numa era de superficialidades, costuma-se qualificar de maneira pejorativa aquele que não pensa como o qualificador. Por isso é que se criam antagonismos artificiais, como aquele entre inovadores e conservadores.

Sempre me considerei um inovador, mas também já fui acusado de ser conservador. A leitura de “A Política da Prudência”, de Russell Kirk, me fez simpatizar com o pensamento mais próximo ao conservadorismo. Como o próprio autor adverte, “não sendo nem uma religião, nem uma ideologia, o conjunto de opiniões chamado de conservadorismo não possui Sagradas Escrituras, nem um Das Kapital, como fonte dos dogmas”.

É que o conservadorismo não é uma ideologia, não se sustenta sobre dogmas, porém é um estado de espírito, certa forma de enxergar a ordem civil e social. Russel Kirk fornece dez “artigos de fé” do conservadorismo, a partir de sua experiência nos Estados Unidos.

O primeiro é que o conservador acredita que há uma ordem moral duradoura. Se a natureza humana é uma constante invariável, as verdades morais também devem sê-lo. São permanentes, de certa forma absolutas. O desconhecimento do que seja “ordem” já conduziu o mundo a inúmeras catástrofes. O século XX é um período emblemático, em que a humanidade enfrentou dois terríveis conflitos mundiais.

O segundo artigo é: o conservador adere aos costumes, à convenção e à continuidade. Os costumes antigos são aqueles que permitem que as pessoas vivam juntas e em paz. A convenção entre os homens é que permite evitar mais disputas sobre direitos e deveres.

Em terceiro lugar, os conservadores acreditam no que se pode chamar de princípio da consagração pelo uso. Isso significa a fruição das coisas estabelecidas pelo uso imemorial. É respeitar a memória humana, que não pode se esquecer de suas conquistas. Kirk cita Peter Burke: “o indivíduo é tolo, mas a espécie é sábia”. Aquilo que permanece, tem sua razão de ser. Não é mera coincidência ou acaso.

Um quarto artigo: os conservadores são guiados pelo princípio da prudência. Desde Platão, a prudência é a maior das virtudes para um estadista. Qualquer medida que vai afetar a sociedade precisa ser analisada sob o ângulo de suas consequências. Aqui, a citação é de John Randolph of Roanoke: “A Providência anda devagar, mas o diabo sempre urge”.

Quinto: os conservadores prestam atenção ao princípio da variedade. Não temem a complexidade prolífera das instituições há muito estabelecidas e não são seduzidos pela tentativa homogeneizadora das soluções radicais. A natureza humana é múltipla. Cada indivíduo é irrepetível, desigual, heterogêneo e até os gêmeos univitelinos são diferentes entre si.

Um sexto artigo diz que os conservadores são disciplinados pelo princípio de imperfectibilidade. A matéria de que é feito o ser humano é falha, ordinária, miserável. Por isso é que ele não pode criar uma ordem perfeita para o convívio. Caminha-se rumo à possível ordenação, na convicção de que haverá equívocos e será necessário reformular a rota. Isso é próprio da condição humana.

Em sétimo lugar: os conservadores estão convencidos de que a liberdade e a propriedade estão intimamente ligadas. Quem ousar separar a propriedade da posse privada verá o Estado se converter no senhor absoluto. Quanto mais homens forem proprietários, mais estável e exitosa será uma sociedade.

Um oitavo artigo diz que os conservadores defendem comunidades voluntárias, da mesma forma que se opõem a um coletivismo involuntário. Por isso é que uma tendência a ser reprimida é a tentativa de sufocar o Terceiro Setor, aqueles conjuntos gregários que surgem espontaneamente, a partir de uma comunhão de ideais e de interesses.

O nono artigo reza: o conservador vê a necessidade de limites prudentes sobre o poder e as paixões humanas. O conservador vê com bons olhos o limite e equilíbrio do poder político, para que anarquia ou a tirania não se instalem sobre a sociedade. Já que “a natureza humana é uma mistura de bem e mal, o conservador não deposita a confiança na mera benevolência”. Daí as restrições constitucionais, os sistemas de freios e contrapesos, a participação da cidadania a lembrar o governante de que ele é um servo, não senhor.

Por fim, o décimo artigo: o conservador razoável entende que a permanência e a mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade vigorosa. O conservador racional não se opõe a melhorias sociais, sabe que qualquer conjunto social humano é afetado por duas forças: permanência e progressão. O conservador inteligente não é contrário ao progresso. Ele quer uma conciliação, para que as mudanças não sejam abruptas e traumáticas.

E aí? Você também tem alguma coisa de conservador? Já sabia disso?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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