Um Brasil vermelho

Um Brasil vermelho

José Renato Nalini*

15 de janeiro de 2021 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A notícia de que a venda de armamentos registrou previsível acréscimo depois do incentivo estatal é preocupante. Sabe-se que o presente é caracterizado por fanática polarização e que os indivíduos têm motivos para crescente insatisfação.

O mundo não está bonito. A pandemia evidenciou a fragilidade humana e foi ceifando vidas. Ela agravou o que já estava ruim. Uma economia debilitada por corrupção, sucateamento do parque industrial, automação acelerada, destruição da floresta e da biodiversidade, tudo a conspirar contra o sonho do “país do futuro”.

Situação tal não indica o bom uso de armas de fogo. A irritação que impregna boa parte dos brasileiros, a ira adversarial que transforma quem pensa diferente em inimigo figadal, o impulso excitado pelo uso do álcool, a intolerância, a impaciência, são fatores aparentemente ignorados pelos defensores da facilitação do processo aquisitivo, da posse e do uso de armamento.

Sei que minha posição é insólita e escoteira. Quando se discutiu o Estatuto do Desarmamento, sustentei que um instrumento destinado a matar não deveria sequer ser fabricado. Já existe tecnologia apta a neutralizar alguém, paralisando um eventual agressor com um choque, sem a necessidade de tirar sua vida.

Mas prevalece a cópia do modelo americano, que – nesse ponto – não é dos melhores. Há uma sucessão de chacinas perpetradas dentro de escolas, por indivíduos armados em momento de surto ou de perda do autocontrole. Além disso, a indústria armamentista é um lobby convincente. O discurso de “armar pessoas de bem” consegue seduzir muita gente que se sente segura se estiver portando uma pistola, uma metralhadora ou um fuzil.

A prevalecer essa tendência, não é difícil que o Brasil se mostre plausível ocupante de mais um ranking. Já somos o país que mais destrói o ambiente, somos o segundo em mortes pela Covid19, o terceiro Estado que mais encarcera. Logo poderemos ser aquele que mais mata com armas de fogo. O que não está longe. Mesmo antes desse incentivo pela compra de armas, com facilitação de todos os trâmites, já eram setenta mil os jovens assassinados a cada ano.

Em momentos de histeria coletiva, que acometem até as democracias que pareciam mais sólidas, o bom senso não tem vez. Prevalece o discurso ufanista ou de ódio, ou o misto entre ambos.

Somente a literatura pode enxergar com certa lucidez e uma dose de picante ironia, como poderá ser este País, quando o uso do armamento de fogo chegar às socialites. É o que se vê numa página do livro “Cem Encontros Ilustrados”, de Dirce Waltrick do Amarante, publicado pela Iluminuras. Ela reproduz o que seria um encontro de mulheres modernas, todas elas adeptas do porte de arma: “Liberado o uso de arma de fogo, as senhoras da sociedade de Alameda do Sul, que se reuniam havia mais de vinte anos todas as terças à tarde para celebrar a vida e exibir suas novas bolsas Chanel, Gucci, Prada, etc., passaram a ter mais uma novidade para mostrar às amigas: os seus revólveres. Alguns apresentavam detalhes personalizados (eram dourados, ou pretos com pontos prateados, ou com estampa de onça). Foi numa dessas tardes festivas, enquanto tomavam champanhe, mexiam no celular de última geração, para procurar as fotos da última viagem a Abu Dhabi ou a outro lugar da moda, e ostentavam discretamente a boca do cano de seus revólveres que brotava de suas bolsas semiabertas, que o músico Zilu Mendes, contratado para animar o encontro, foi barbaramente assassinado, assim como todas as damas da sociedade, os garçons e demais serviçais que se encontravam no local. O caso foi o seguinte pelo que li nos jornais: Zilu ligou dois microfones ao mesmo tempo, o que provocou uma microfonia alta e aguda, assustando as senhoras. Uma delas, instintivamente sacou o revólver de sua bolsa de couro de cabra Prada e atirou em direção ao som. Atingiu uma das cristaleiras da casa. O novo barulho produziu um efeito em cadeia: as mulheres, uma a uma, puxaram os seus revólveres das bolsas e começaram a atirar em todas as direções. Segundo os policiais militares que atenderam ao caso, as trouxinhas de camarão ainda estavam quentinhas, e o champanhe, gelado”.

Mera ficção? Algo para se rir? Ou para se lamentar?

O país que elimina o verde aderiu ao vermelho. Não aquele que poderia identificar a opção ideológica. O vermelho simples do sangue dos inocentes que perecerão, pois quanto mais armas de posse das pessoas, maior a potencialidade de infaustas ocorrências, voluntárias ou involuntárias.

Ninguém se recorda de que vida ceifada não se devolve. Não há refil para as vítimas da violência. Quem responderá pelos que nunca mais voltarão?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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