Um Brasil nessas fraudes

Redação

03 de setembro de 2015 | 09h00

*Por Jorge Pontes

Um dos mais competentes jornalistas investigativos da televisão brasileira, Eduardo Faustini, que tive o prazer de conhecer e me tornar amigo e admirador, vem percorrendo o Brasil de norte a sul e produzindo, com sua lente refinada, flagrantes semanais de corrupção política, fraudes em contratos de obras e serviços públicos, conluios em concorrências, acertos em editais, desvios de verbas e todo tipo de negociatas espúrias no seu já consagrado programa “CADÊ O DINHEIRO QUE ESTAVA AQUI?”, levado ao ar no “Fantástico”, revista eletrônica de domingo da Rede Globo de Televisão.

O programa, desta forma, presta um grande serviço ao mostrar o horror da nossa realidade, porquanto Eduardo Faustini logra de fato encontrar inúmeras fraudes por este Brasil afora.

Contudo, em que pese a alta qualidade de suas reportagens, a atual conjuntura nacional parece estar inflacionando o trabalho do nosso craque do jornalismo investigativo.

O flagelo do delito sistêmico institucionalizado nos faz crer que os desvios passaram a ser a regra e que não haveria um só contrato, uma só concorrência pública, que não fosse fraudada e superfaturada. E muitos são os exemplos: os esquemas de desvio de verbas bilionárias da Petrobras; a contabilidade e economia do país sendo fraudadas e maquiadas por meio de constantes pedaladas fiscais; a igualmente bilionária pilhagem dos setores elétrico, hídrico e nuclear; os recursos públicos desviados do já citado Petrolão, e por sua vez carreados para o denominado Mensalão (que teriam sido utilizados na compra de deputados e senadores, para que estes votassem de acordo com os interesses dos seus corruptores); a suposta irrigação das campanhas eleitorais para presidente da república, com dinheiro sujo dos respectivos esquemas fraudulentos; a farta distribuição de pixulecos para altas autoridades governamentais; enfim, a absurda e anacrônica utilização da corrupção como sistema e instrumento de governo.

A propósito, foi um respeitado ministro do STF que recentemente expressou sua indignação afirmando que, no que tange a Operação Lava Jato “a cada pena que se puxa, vem junto uma galinha”.

Diante desse quadro de degeneração moral, a título de experimento jornalístico, sugiro que Faustini inverta a proposta do seu programa semanal. Faço então um desafio ao meu amigo e consagrado homem de televisão: que ele doravante se lance no encalço, tentando registrar, em reportagem, um único e singelo contrato de obras ou serviços, firmado com o governo, que tenha sido realizado com total lisura e transparência; que tenha respeitado o objeto inicial do contrato; uma concorrência ou uma licitação pública, na qual não tenha ocorrido fraude, ou que não tenha tido detalhes acertados entre os participantes, ou cujo edital não tenha sido elaborado por uma das empresas, ou mesmo que não tenha sido vazado para os que nela concorreram, enfim, que Eduardo Faustini encontre um Brasil nessas fraudes.

Aí sim, seria realmente FANTÁSTICO.

*Jorge Pontes é delegado de Polícia Federal e foi diretor da Interpol no Brasil

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