Um balanço de 2020 para a agenda Govtech do Brasil

Um balanço de 2020 para a agenda Govtech do Brasil

Letícia Piccolotto*

12 de fevereiro de 2021 | 04h15

Letícia Piccolotto. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quando 2020 começou, nem imaginávamos o que viveríamos. Um ano intenso, de aprendizados, de desafios e de muita resiliência, chegou ao fim. A pandemia nos trouxe a necessidade imperativa de adaptar e lidar com uma nova realidade mundial. Tantas foram as transformações, muitas delas ainda não podem ser mensuradas, enquanto outras eram, sequer, esperadas.

Dentre essas mudanças inesperadas está o impacto no universo das tecnologias e, especialmente, para o mundo GovTech. A urgência e a necessidade de prover respostas rápidas para conter o vírus e seus efeitos negativos aceleraram muitas transformações. Como resultado, algumas tendências surgiram, como o desenvolvimento de novas tecnologias, a adoção de aplicativos já existentes ou, ainda, o uso cada vez mais presente de determinadas soluções em nosso dia-a-dia.

É o caso das experiências de digitalização no setor público. O assunto, antes tratado como algo disruptivo, mas não como prioridade, ganhou um novo status. Costumo dizer que, antes da pandemia, a transformação digital dos governos era uma tendência, mas se tornou uma realidade inadiável.

Talvez o exemplo mais emblemático disso seja o pagamento do auxílio emergencial. Em uma operação sem precedentes, órgãos do governo federa se mobilizaram pela construção de uma solução digital que pudesse garantir o pagamento do auxílio, impactando direta ou indiretamente metade da população brasileira. A experiência expôs falhas, apontou desafios, mas foi fundamental para demonstrar o quanto a digitalização é essencial para garantir o acesso a serviços públicos de qualidade.

O pagamento do auxílio emergencial também foi importante para expor a urgência de uma identidade digital única no país. A Índia talvez seja a principal experiência neste tema: ela criou o Aadhaar, um sistema de identidade digital que registrou os mais de 1 bilhão de habitantes do país.

Seguindo a tendência de digitalização, mais de 200 serviços públicos tornaram-se digitais, sem necessidade de deslocamentos, como a CNH, RG e a carteira de trabalho. A meta da Estratégia de Governo Digital do Brasil (EGD) é chegar ao final de 2022 com todas as etapas e os serviços públicos digitalizáveis. A estimativa de economia é de R$ 38 bilhões em cinco anos, de 2020 a 2025. Um serviço digital é, em média, 97% mais barato que o mesmo serviço oferecido por um canal presencial, de acordo com a publicação “Estratégia Brasileira para a Transformação Digital”, do Ministério da Economia.

Não é exagero dizer que, sem a transparência das instituições públicas e a disponibilização de dados, seria impossível implementar qualquer tipo de ação para o combate à pandemia de coronavírus. Também acompanhamos como a discussão sobre dados foi apropriada pela sociedade como um todo. Assim, os avanços para a construção de uma cultura de uso estratégico de dados certamente serão um legado de 2020 e é preciso garantir que ele se mantenha e se amplie nos próximos anos.

Outro legado de 2020 foi a transformação na saúde, principalmente a partir do trabalho das healthtechs. Devido às medidas de isolamento social, alguns serviços que antes eram realizados presencialmente, passaram a contar com a tecnologia como uma importante aliada. Teleconsulta, monitoramento online, aplicativos para receita médica e tantas outras facilidades passaram a fazer parte da atenção à saúde. E com a implementação dessas soluções em larga escala, estamos diante da oportunidade de acompanhar os resultados e definir as bases para o uso futuro dessas tecnologias.

Ainda temos um longo caminho para vencer a pandemia e também superar seus efeitos que têm sido sentidos, de alguma forma, por todos. Mas sigo confiante de que os legados deixados pelo ano de 2020, especialmente aqueles relacionados à agenda de governo digital, serão fundamentais para esse grande esforço coletivo.

*Letícia Piccolotto é presidente executiva da Fundação BRAVA e fundadora do BrazilLAB

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