Um ano é tempo suficiente para aprender a lidar com o ensino remoto

Um ano é tempo suficiente para aprender a lidar com o ensino remoto

Ângela Mathylde*

20 de março de 2021 | 06h00

Ângela Mathylde. FOTO: NATHÁLIA GORITO

Foi em 16 de fevereiro de 2020 que o Brasil confirmou seu primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus. O primeiro contaminado, um homem que havia chegado da Itália e, naquele momento, era o país que mais sofria com as trágicas sequelas da doença, desembarcou em São Paulo após uma viagem a trabalho. Mais de um ano depois, os brasileiros ainda se veem sem rumo, à deriva, sem autoridades sensatas – salvo alguns políticos que, na conjuntura atual, configuram-se como minoria – que saibam, a exemplo de outras nações, lidar com a pandemia. Diante desse cenário, fica difícil mensurar o sofrimento dos brasileiros e, mais difícil ainda, determinar quais segmentos sociais foram os mais afetados. Não há dúvidas que todos foram prejudicados, porém, há um grupo que já deveria ter ganhado atenção há muito tempo: as crianças e adolescentes em idade escolar.

Desde que os estados decidiram cancelar as aulas presenciais e adotaram o ensino remoto, os profissionais da educação discutem uma forma de fazer com que o processo de aprendizagem fique defasado. Artigos acadêmicos, seminários virtuais e outros eventos para o segmento já abordaram inúmeras ferramentas e métodos que podem e devem ser implementados durante o ensino a distância ou híbrido para não prejudicar o processo de aprendizagem do aluno.

Há um consenso no meio acadêmico que, com a realidade imposta pela pandemia, não é conveniente, simplesmente, transferir a metodologia do ensino tradicional para o meio virtual. É necessário pensar em um plano para essa nova realidade de ensino, uma proposta cujas configurações das aulas favoreçam a interação, colaboração e envolvimento com as tecnologias digitais.

Ademais, é necessário ter uma gestão de sala de aula, tempo utilizado e o conteúdo que será abordado. A recomendação também é refletir sobre o papel desempenhado pelo professor no ensino híbrido e pelos alunos que sofrem alteração. Antes, todos ficavam juntos, submetidos à mesma dinâmica, ao mesmo projeto e à mesma metodologia. A situação agora é outra, bem diferente.

A dicotomia no aprendizado de crianças e adolescentes de classes sociais diferentes foi outro aspecto que suscitou o debate, desde quando as aulas passaram a ser realizadas de maneira remota, em março do ano passado. Discutia-se, e ainda se discute, o risco de alunos menos favorecidos terem uma aprendizagem defasada.

A grande questão para se debater, entretanto, deve ser a necessidade da elaboração de um novo projeto pedagógico consistente para todos serem favorecidos. É primordial a construção de um plano político-pedagógico que ande de acordo com as necessidades do aluno. A escola precisa estar pontuada entre política de projetos e projetos assertivos que entendam que, embora a educação seja para todos, o processo de aprendizagem é individual.

Portanto, para que isso ocorra, é necessário os principais responsáveis por promoverem a educação – secretarias e o próprio Ministério da Educação – tomarem as rédeas e assumam sua responsabilidade. Depois de um ano convivendo com a pandemia, não se pode mais aceitar a desculpa de que todos ainda estão se acostumando com o “novo normal”. A omissão de órgãos competentes responsáveis por viabilizar políticas públicas já fez muitas vítimas em um ano e não se deve deixar que faça ainda mais.

O vírus continua a todo vapor. As pessoas insistem em desrespeitar leis, regras e convivência segura, provando que a educação há muito já entrou em falência. E, nesse aspecto, não podemos culpar o coronavírus.

*Ângela Mathylde, psicopedagoga e neurocientista

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