Um alento profético

Um alento profético

José Renato Nalini*

30 de novembro de 2020 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

No pandemônio das beligerâncias impregnadas de baixezas em que boa parte dos humanos se chafurda, há pelo menos um signo de esperança. Francisco, o Papa que já ofereceu ao desvairado planeta um alerta sobre a tragédia que se abate contra a natureza – a Encíclica Laudato Si – e que nos lembra que somos todos irmãos – Fratelli Tutti – envia mais uma consistente mensagem profética.

O livro “Vamos Sonhar Juntos” é um convite à reação. Reajamos aos toscos, aos bélicos, aos fratricidas, aos ecocidas. Reajamos à intolerância, à perversidade, ao egoísmo, ao individualismo narcísico, a todas essas doenças que são muito mais graves do que a Covid19.

A pandemia é mais um aviso que a humanidade recebe, mas que parece ainda não ecoar no coração empedernido daqueles que pensam ser eternos. Não se comovem com os milhões de mortos no mundo inteiro. Neste Brasil tão imerso em calamidades – éticas, morais, políticas, sociais, econômicas e sanitárias – são impassíveis diante dos quase duzentos mil mortos e quase sete milhões de infectados.

Uma doença para a qual ainda não se descobriu vacina é o negacionismo. Nada que não seja o meu umbigo me interessa. Sou cego aos clamores dos invisíveis, dos excluídos, dos desempregados, dos desalentados, dos desprovidos de tudo. Até de perspectivas.

Os negacionistas são mais uma vez criticados pelo Papa. Ele propõe a instituição de uma renda básica universal e proclama que a discriminação contra os refugiados e contra os crentes de outras confissões – inclusive contra os agnósticos e ateus – é algo frontalmente contrário à mensagem de Jesus.

O livro de Francisco resultou de conversas com o jornalista inglês Austen Ivereigh e é a visão do Pontífice para a vida pós pandêmica. Tudo será ainda pior se a humanidade não se converter. Se deixar de cuidar do ambiente como o único habitat disponível, se continuar a exercer a política da forma desumana com que ela tem sido infligida aos mais necessitados.

Impressionou o jornalista a postura humana de Francisco, incrivelmente superior às convenções que inibem a adoção de uma linguagem universal. Como deveria ser a conduta dos católicos. Infelizmente, há radicalismos, fundamentalismos, comportamento anticristão e antiético em inúmeras mentes, que poderiam ser incluídas no conceito evangélico de “sepulcros caiados”.

Vozes que resistem à candura de um Pastor sensível e acolhedor como Bergoglio. Chegam a contestá-lo, a considerar o seu Pontificado um retrocesso, num automático alinhamento com a Igreja distante dos pobres, dos diferentes, dos excluídos e dos injustiçados.

Austen Ivereigh encaminhou ao Papa uma série de questionamentos por e-mail. Além disso, compilou todos os pronunciamentos do chefe da Igreja, assim como tudo aquilo que ele escreveu, inclusive antes de ser eleito sucessor de Bento XVI.

Depois disso, ofereceu o resultado a Francisco, que estruturou o livro, a partir do material reunido pelo britânico. Nele, o Papa observou o método “ver-julgar-agir”, ou como ele próprio parece preferir, “contemplar-discernir-propor”.

A partir da observação do que a Humanidade faz contra o planeta, contra os irmãos, contra si e contra a transcendência, não é difícil constatar que essa rota e ritmo são fatais e irreversíveis. Daí a proposição de um alinhamento eficaz contra o estado de coisas desumano, para comparar com o instituto do “estado de coisas inconstitucional”.

O Papa fica indignado com a insensibilidade de alguns líderes populistas que negam as vulnerabilidades e as veias abertas do povo sofrido e o tratam como se fora massa desprovida de autonomia.

O discurso hipócrita da salvação da cultura ocidental sequer consegue disfarçar a sede pela perpetuação no poder, o que vai de encontro com o Evangelho. Não é cristão separar seres humanos por suas etnias, condições sociais, opções religiosas ou quaisquer outras discriminações. Diz o Papa no livro: “Rejeitar um migrante em dificuldade, seja ele da religião que for, por medo de diluir a cultura cristã, é uma deturpação grotesca tanto do cristianismo como da cultura”.

Três eixos devem ser observados pelos homens de boa vontade: o primeiro é a “ecologia integral”. Cuidar da Terra com carinho e solicitude, muito ao contrário do que se perpetra contra a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Mata Atlântica e demais biomas. O segundo é a adoção da renda básica universal, além de outras iniciativas que reduzam a desigualdade. O terceiro é fortalecer os movimentos sociais. A organização da sociedade a partir de baixo, o estímulo à solidariedade que brota espontânea entre os unidos pela dor e pela exclusão.

Os guardiões da “verdade” para eles conveniente vociferarão. É normal. Há quem vislumbre naquilo que tem ocorrido nestes tempos plúmbeos sinais denunciadores do Apocalipse. Era em que surgirão muitos falsos profetas. Por fim, a mensagem Daquele cujo nascimento marcou uma era, e cujo aniversário se aproxima, prevalecerá. Penso que Francisco está mais próximo dela, tão deturpada no decorrer dos séculos, do que a dos que o hostilizam.

“Vamos sonhar juntos”, do Papa Francisco e Austen, publicado pela Editora Intrínseca, é um convite irrecusável. Cumpre-nos atender e refletir sobre o seu conteúdo.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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