Ulisses, os argonautas e Einstein: uma breve reflexão sobre o menor dos males

Ulisses, os argonautas e Einstein: uma breve reflexão sobre o menor dos males

Fábio Astrauskas*

13 de agosto de 2021 | 16h50

Fábio Astrauskas. FOTO: DIVULGAÇÃO

Há uma passagem do clássico “A Odisseia” na qual Ulisses enfrenta o dilema de atravessar o estreito de Messina, tendo o risco de um lado de ser despedaçado pelo monstro Cila e de outro de ser engolido pelo não menos perigoso Caríbdis. O relato de Homero é tão impactante que deu lugar à expressão “Entre Cila e Caríbdis” para retratar um dilema do qual não podemos escapar sem assumir riscos ou perdas.

Assim podemos nos ver diante das opções que se vislumbram desde as últimas eleições presidenciais no Brasil. Para não eleger Cila, votamos em Caríbdis. De qualquer modo, no entanto, nosso fim parece ser lidarmos com perdas e ameaças em vez de sonharmos com um país melhor.

Pior ainda, muitos de nós ainda não enxergamos ambas as opções como monstruosidades. Regra geral, vemos uma luta do bem contra o mal e nos atiramos cegamente para os braços de um deles sem perceber que na verdade os dois são possuidores de garras dispostas a nos destroçar ou engolir. Curiosamente, Cila e Caríbdis eram originalmente belas ninfas que foram amaldiçoadas e tiveram suas belezas e bondades transfiguradas em crueldade e destruição. Algo semelhante aos discursos políticos sendo transformados em impunidade, corrupção ou negacionismo.

Há ainda alguns de nós que, apesar de enxergarmos os dois como monstros, preferimos adotar a frase do “menor dos males”, aliás, tal qual Ulisses fez ao optar por Cila e perder vários marinheiros. Quando nos é mostrado tal argumento, no entanto, mais uma vez a própria mitologia grega nos apresenta sabiamente sua versão para o dilema, quando conta, em outra passagem mitológica, como os argonautas conseguiram atravessar o mesmo estreito sãos e salvos conduzidos por Tetis e suas irmãs, num indo e vindo da embarcação por entre rochedos e o mar revolto. Em outras palavras, para fazer o bem, precisamos de muitos agindo de maneira coordenada e paciente, cedendo algumas vezes e avançando em outras.

Caminhamos rapidamente para as próximas eleições. Neste momento, parecemos estar ainda mais apegados aos conceitos de bem e mal ou do menor dos males. Se for assim, continuaremos regredindo. Se não abandonarmos as tentações de Cila ou Caríbdis, seja qual for, iremos naufragar. A polarização está nos levando ao radicalismo e não se trata mais apenas de atacar ou defender ideias. Faz tempo que atacamos pessoas, que ameaçamos instituições, que criamos inverdades repetidas exaustivamente. Os ataques são na maioria verbais, porém cada vez mais ameaçadores e entre as ameaças aparecem sinais cada vez mais fortes de que podemos involuir para conflitos armados.

Precisamos dar um basta nesta trajetória. Devemos reconhecer que nenhum dos dois monstros merece nosso apoio, nosso esforço compreensivo, nossa torcida ou nossa preferência. Somente a partir daí, poderemos buscar o caminho estreito e trabalhoso que nos afasta das duas opções que comprovadamente nos conduziram para o retrocesso, seja econômico ou seja social.

Para os que ainda insistem que não há terceira via, devemos lembrar, como Einstein: “O mundo está em perigo maior daqueles que toleram ou encorajam o mal do que daqueles que de fato o cometem”. Devemos tratar do nosso futuro com a coragem de dizer não às duas monstruosidades que se apresentam diante de nós. Quanto à escolha que virá a partir daí, seja qual for, ela não será produto do medo, da revanche ou da falta de memória. Será consequência do amadurecimento e da certeza de que nosso destino não está nas mãos de um, mas sim nas ações de muitos. Que não haverá um salvador pelo caminho a percorrer, mas que pelo menos deixaremos para trás os monstros que nos ameaçam, que eles não serão mais tolerados ou encorajados a se eleger ou se reeleger.

*Fábio Astrauskas, economista e presidente da consultoria Siegen

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