Ucrânia e Rússia: irmãos de nascimento, primos distantes

Ucrânia e Rússia: irmãos de nascimento, primos distantes

Felipe Bonamin Viveiros de Paula*

04 de março de 2022 | 08h45

Felipe Bonamin Viveiros de Paula. FOTO: VIVIANE SEEGER

A Rússia alega que a Ucrânia oprime os falantes nativos de russo. Os ucranianos, por sua vez, dizem que estão (re)construindo sua identidade nacional.

Durante séculos, sob o Império Russo e depois a União Soviética, o ucraniano foi estereotipado como “língua de camponeses”. O russo foi, ao longo da História, promovido como o “idioma da cultura”. Embora o russo e o ucraniano compartilhem as letras e o vocabulário do alfabeto cirílico, são idiomas distintos com apenas 60% de semelhança. Algo como a diferença linguística entre o holandês e o inglês. E não surpreende o porquê.

Embora o apelo sentimental e espiritual dos russos pela Ucrânia derive da ideia de que os dois povos nasceram como um só no pequeno reino da “Rússia de Kiev” – no século 9 –, essa “pátria ancestral conjunta” não caminhou tão unida assim. Desde a época da fundação até a conquista pelos mongóis no século 13, a Rússia foi uma federação bem fragmentada. A região de Kiev foi conquistada pela Polônia e Lituânia no início do século 14, e durante “apenas” 400 anos foi governada por esses dois países, o que deixou profunda marca cultural. Durante quatro séculos, a população ortodoxa eslava da Ucrânia desenvolveu uma identidade distinta dos russos – que permaneciam sob o domínio mongol e moscovita. Não é coincidência que a língua ucraniana seja tão diferente da russa.

É claro que, depois décadas de dominação do Império Russo e incorporação à União Soviética, muitos ucranianos, hoje, falam russo e ucraniano de modo intercambiável. A proximidade cultural não foi escolha. Foi obrigação. O Império Russo perseguiu sistematicamente as expressões da cultura ucraniana e fez contínuas tentativas de suprimir sua língua. Não é à toa que, quando o Império Russo entrou em colapso depois das revoluções socialistas de 1917, a primeira ação que os ucranianos fizeram foi declarar um estado próprio. Depois de anos de guerra – e quase independência – a Ucrânia foi, mais uma vez, dividida entre a Rússia e a Polônia. A experiência com os soviéticos deixou traumas.

A identidade ucraniana foi destroçada e reprimida na Ucrânia soviética. A “aversão” ficou ainda mais forte com o “Holodomor”, a grande fome causada pela política agrícola de Stalin, entre 1932 e 1933, que matou quase cinco milhões de ucranianos. Com rejeição de ajuda externa, confisco de alimentos domésticos e restrição do movimento populacional, os soviéticos fizeram um estratégico genocídio do povo ucraniano. Foi só com o colapso da União Soviética, em 1991, que a Ucrânia conquistou a condição de Estado independente. Acontece que o povo ucraniano já lutava – e resistia – por sua autodeterminação. E há muito tempo.

A legislação, não por orgulho nacional, mas por resistência, prioriza o ucraniano na vida pública. Por lei, toda a mídia impressa deve publicar em ucraniano. Não há vingança, há forte sentimento de justiça. O russo não é proibido, só é necessário que as publicações dos jornais emitam versões em ucraniano. E não para por aí. Em 2016, a legislação determinou que 35% da música tocada em rádio deve ser em ucraniano. A lei aumentou a demanda pelo pop nacional, e fez com que os ucranianos tornassem a música uma poderosa ferramenta de autodeterminação. Hoje, as bandas e os artistas ucranianos são as trilhas sonoras dos protestos à invasão russa. A música na Ucrânia tem ajudado o país a afirmar sua própria identidade cultural, relembrar os séculos de história separados e a repressão vivida na mão dos seus irmãos de nascimento que o tempo tornou primos distantes.

Os acordes políticos, tanto quanto os acordos políticos, têm sido uma ferramenta para auxiliar no rebranding nacional e projetar uma imagem externa “não russificada” para o resto do mundo. Uma disputa cultural está em curso. O prêmio? O direito de definir a identidade do país. Olhar para a Ucrânia e enxergar a Rússia é uma leitura perigosa do passado. O que faz a Rússia, nestes dias, é redefinir fronteiras e tentar reescrever História. A invasão da Ucrânia impulsiona, ainda mais, a latente aversão dos ucranianos à Rússia. Enquanto caem as bombas, a música toca e as diferenças entre os ucranianos e os russos ficam mais claras do que nunca.

*Felipe Bonamin Viveiros de Paula, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda). Escreve e edita o site www.culturadorestodomundo.com

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