Tudo vai ser diferente

Tudo vai ser diferente

José Renato Nalini*

24 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Após centenas de milhares de mortes, confinamento e pânico, falou-se em “novo normal”. Anormal é a inércia perante o desvario que acelerou a catástrofe e a impotência da sociedade em responsabilizar a insanidade. Mas como os americanos gostam de exercer a futurologia e elencar as megatendências, The Economista alinhou vinte delas para o pós-pandemia.

Pode ser que algumas de fato nos atinjam. Aliás, já estão detectadas pelos mais observadores. A primeira é o sistema híbrido para a educação formal. O learning experience design veio para ficar. Os millenials não ficarão sem o conteúdo disponibilizado pela internet. Os professores terão de se acostumar e de ser mais criativos, intuitivos e curiosos, para induzir a curiosidade do alunado. Outra coisa que veio para ficar é o progresso da telemedicina. A migração para a medicina digital só vai continuar e se intensificar. Diagnósticos básicos, periódicos, monitoramento da saúde, se fará à distância.

Aqueles que têm o privilégio de contar com renda, poderão poupar mais, porque terão redução de gastos. O que os americanos não dizem é como conseguir meios de subsistência dignos e permanentes para os milhões de invisíveis que a pandemia escancarou.

Também veio para ficar o e-commerce. As pessoas se acostumaram a comprar pela internet. Isso terá um custo pesado e amargo: muitas lojas físicas fecharão para sempre e as que restarem terão de enfrentar a realidade da fidelização de seus clientes. Oportunidade para o design de serviços e transformação das agências.

O aquecimento global é tema de primeiríssima importância. Todos serão cobrados para reduzir emissão de gás carbônico, despoluir, pensar em logística reversa e adotar a economia circular. Deixar da cultura do descarte e da produção de toneladas de resíduos sólidos que precisam ser reciclados, até para parar a hemorragia econômico-financeira do Brasil.

Acena-se com a redução da fake News. As pessoas se tornarão menos crédulas e desconfiarão dos exageros. Custa a crer que o fanatismo será aniquilado e que possa raiar o bom senso, a tolerância, o respeito à diversidade em solo tupiniquim. Talvez esta tendência se aplique mais aos norte-americanos do que aos habitantes de terrae brasilis.

Haverá grande preocupação com a saúde mental, pois o isolamento produziu estresse, depressão e multiplicou as já numerosas síndromes. Solidão, angústia, tendência ao suicídio, tudo isso estará na mira das pessoas que poderão minimizar tais sintomas da pós-pandemia, investindo em terapias e orientação para os que estiverem perdidos após a catástrofe.

Uma prioridade serão os empreendimentos sociais. Todos deverão se ocupar de tarefas que propiciem redução da carga de sofrimento e angústia que recai sobre os humanos, principalmente depois de passarem por esta tragédia, que só não comoveu os psicopatas. Educação, saúde, energia, segurança, política, redução das desigualdades, ganham espaço cativo e devem gerar movimentação do Terceiro Setor e de individualidades mais sensíveis.

A busca de uma vida mais natural e saudável prosseguirá. Orgânicos em alta, assim como a multiplicação de hortas, pomares, valorização do consumo local, apoio à reciclagem e menor desperdício. O novo luxo é ser saudável, consciente e amigo da natureza.

Fala-se em “renascimento pessoal”, porque a humanidade enfrentará um novo começo. O reinício da reflexão sobre o trabalho, saúde, dinheiro, relações e objetivos espirituais. Semear a harmonia, a convivência polida e cordial, o respeito pelo outro, não será algo transitório, mas definitivo na lista de objetivos humanos daqui para a frente.

O trabalho remoto será para sempre. Escritórios e espaços de trabalho ganharão novo design e serão divertidos, tipo Google. Conexões menos frequentes, mas memoráveis. Desaparecerão os grandes escritórios, aquela imensa concentração de pessoas, cada qual em sua mesa, para o surgimento de um formato mais inteligente e funcional. A ociosidade dos edifícios corporativos é uma realidade que deve ser contornada com a destinação para missões que humanizem o convívio, não o automatizem completamente.

Haverá significativa redução do “turismo de negócios”. Para que as grandes reuniões, que nada produzem e que fazem com que as pessoas deixem o seu trabalho para encontros de lazer, como se foram iniciativas culturais? Isso se vulgarizou na esfera jurídica e os encontros virtuais se mostraram mais produtivos e eficientes.

As pessoas ficarão mais em casa, porque as residências serão também o principal local de trabalho. Em compensação, elas ganharão em conforto e acolhimento. O trabalho será feito à distância e desaparecerá a fase de começar num emprego e terminar nele depois de trinta e cinco anos. O RH se especializará em contratar talentos internacionais. A necessidade de dominar outro idioma será primordial.

Tudo o que é repetitivo será virtual e o streaming tomará conta do entretenimento. As notícias serão obtidas pela mídia digital. Novas tecnologias se tornam vitais e quem não se aperceber disso será descartado. As startups de tecnologia vão tirar de cena as tradicionais que não se transformarem digitalmente.

O turismo será outro. Respeito à natureza. Experiências mais saborosas e menor volúpia de rodar o mundo sem se abeberar na cultura local. O turismo de meditação estará em voga.

Continuará o paradoxo da proteção dos dados pessoais, em cotejo com o exibicionismo de quem escancara sua vida no instagram, com excesso de selfies e comunicação ao mundo de tudo o que faz, come, veste ou pensa. E todos seremos comandados pela inteligência artificial. Os algoritmos já controlam nossa vida. Farão muito mais e as funcionalidades híbridas entre as tecnologias nos surpreenderão.

Tudo vai ser diferente. Será mesmo?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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