Tudo igual, mas pior

Tudo igual, mas pior

José Renato Nalini*

18 de fevereiro de 2022 | 12h00

Devastação causada pela chuva em Petrópolis, no Rio. FOTO: SILVIA IZQUIERDO/AP

A tragédia em Petrópolis era previsível. Ocorreu várias vezes ainda durante este século que mal inicia sua terceira década. As chuvas sempre foram previsíveis, embora não com a intensidade com que elas ocorrerão, consequência da inclemência com que o homem trata a natureza.

Ocupar encostas, edificar precariamente habitações toscas e desprovidas de alicerces, é fenômeno comum, corriqueiro e intensificado com a exibição da miséria que atinge milhões de brasileiros.

Só que ainda existe uma entidade chamada “Estado”. Ela sorve a maior parte do trabalho dos brasileiros, pois é uma organização eficiente na cobrança dos tributos. Sua carga tributária é uma das maiores do planeta. Cobra como se os seus serviços fossem de primeiríssima qualidade, entrega-os de forma incompatível com os custos de sua estrutura. Cada vez mais gigantesca, a cada dia mais tentacular.

É obrigação do Estado garantir a incolumidade física dos indivíduos. Assim como é seu dever zelar pelo ambiente hígido, essencial para o equilíbrio ecológico e para a sobrevivência das atuais e das futuras gerações.

Ele falha em praticamente tudo. Educação inferior, mais preocupada com adestrar crianças para decorar informações desatualizadas. O mundo ensina o Estado a acordar para a realidade da Quarta Revolução Industrial: tudo o que se tenta transmitir ao educando, é detectável no mundo web, só que instantaneamente, sempre de maneira a mais atrativa, ajustada à realidade contemporânea, com colorido e sonoridade.

O professor precisa ser o indutor da curiosidade, o orientador, o solucionador de dúvidas para que a criança cresça com capacidade de pensar, de raciocinar, de criticar e de exigir daqueles que são pagos com o dinheiro suado da população, que tenham compostura.

Dir-se-á que faltou dinheiro para remover os ocupantes de áreas de risco em Petrópolis – e o cenário é idêntico em todas as cidades que não são inteiramente planas: a maior parte do Brasil – mas dinheiro não faltou. Para Fundos Eleitoral e Partidário, para orçamentos secretos, para cartões corporativos aos servidores privilegiados do governo e parlamentares em viagens nababescas pelo exterior.

Dinheiro não faltou para propaganda, publicidade, inaugurações, passeatas e estardalhaços. No momento em que mais de vinte milhões de brasileiros passam fome, outros milhões padecem de insegurança alimentar, os milhões de desempregados se somam aos informais, aos subempregados, aos moradores de rua, aos desprovidos de perspectiva de existência digna, é inacreditável que o cortejo de áulicos prossiga na sua sanha de servir ao poder, qualquer seja ele.

O Brasil inteiro clama por uma emergência climática. Não bastaram as chuvas em Minas, na Bahia, em Goiás? Os deslizamentos em Franco da Rocha, Caieiras e Francisco Morato? A seca no sul, que importará em perda de quase cinquenta milhões de toneladas de soja? Já se esqueceram das tempestades de areia no interior de São Paulo?

O momento é de seriedade, concentração de esforços para que a questão ambiental deixe de ser retórica, ou sirva para deletar erros do passado recente e retocar a maquiagem de empresas nunca antes comprometidas com a ética ecológica.

Uma Federação que tem União, Estados-Membros, Distrito Federal e Municípios, todos eles com suas estruturas burocráticas sustentadas por um povo sacrificado e em desalento, precisa despertar, encorajar-se, não perder a capacidade de indignação e exigir conduta séria do governo. De todos os governos.

Aos poucos, a perversão dos costumes, a corrosão do significado das palavras fez com que os iletrados – mas os intelectuais que partilham das benesses do poder também – se esquecessem de que todo agente estatal remunerado pelo povo é servo do povo. É empregado. É pago pelo contribuinte. Muito além de prestar contas do que faz com o dinheiro do Erário, tem de empregá-lo adequadamente.

Não é impossível remover, gradualmente, os moradores das áreas sujeitas a deslizamento, para moradias seguras. Moradia é direito social inserto na Constituição da República. É só deixar de gastar com aquilo que pode esperar. A melhor propaganda para qualquer governo é obra. É resultado. Não é divulgação fantasiosa, de cunho personalista, apenas para alavancar eleições.

Daqui a pouco a temporada de chuvas torrenciais vai passar. E tudo será apagado e esquecido, a não ser pelas famílias que perderam seus membros. Mas no próximo verão, outras chuvas, mais violentas, mostrarão a nossa insensatez ao maltratar o ambiente. Algo terá sido feito até lá?

É melancólico observar que tudo se repete, parecendo igual àquilo que já aconteceu, mas cada vez pior.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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