‘Tudo ia para um caixa central’, diz executivo sobre esquema de Arruda, Agnelo e ex-assessor de Temer

‘Tudo ia para um caixa central’, diz executivo sobre esquema de Arruda, Agnelo e ex-assessor de Temer

Rodrigo Leite Vieira, da Andrade Gutierrez, depôs em acordo de leniência da empreiteira com o Ministério Público Federal e revelou como operava o esquema de distribuição de propinas para ex-governadores do DF e Tadeu Fillipelli nas obras do Mané Garrincha e outros grandes empreendimentos

Fábio Serapião, Luiz Vassallo e Julia Affonso

25 de maio de 2017 | 05h00

Agnelo Queiroz e seu então vice-governador do DF, Tadeu Filippelli, em 2012. Foto: Beto Barata/AE

O executivo Rodrigo Leite Vieira, da Andrade Gutierrez, revelou à Procuradoria da República que ‘tudo ia para um caixa central’ – em referência à destinação de propinas amealhadas no esquema envolvendo os ex-governadores do DF José Roberto Arruda (PR) e Agnelo Queiroz (PT) e o ex-vice Nelson Tadeu Fillipelli, ex-assessor do presidente Michel Temer.

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Arruda, Agnelo e Fillipelli foram presos em regime temporário nesta terça-feira, 23, na Operação Panatenaico, investigação que aponta superfaturamento de quase R$ 1 bilhão nas obras do Estádio Mané Garrincha, em Brasília, o mais caro da Copa 2014 – orçado em R$ 600 milhões, custou R$ 1,575 bilhão.

A base da operação foi o acordo de leniência da Andrade Gutierrez, no qual dois executivos da empreitieira, um deles com mais de 30 anos de carreira no grupo, revelaram como atuava um sólido cartel que se apossou de obras bilionárias em Brasília. Além da Andrade é citada a Via Engenharia.

No despacho em que autorizou a deflagração da Panatenaico, o juiz Vallisney Souza Oliveira, da 10.ª Vara Federal em Brasília, destacou que a Andrade Gutierrez possuía um Caixa 2 único que movimentava valores de obras distribuídas em todo o território nacional e não um caixa local para cada obra.

“As irregularidades no Estádio Mané Garrincha não podem ser analisadas de forma isolada, porque fazem parte de um bloco maior de indicadas irregularidades em apuração contra o mesmo grupo tido como criminoso no Distrito Federal, que inclui obras recebidas do Governo Federal, tal como BRT SUL Gama, que recebeu recursos do PAC – Governo Federal, como
bem apontou o Ministério Público Federal em seu parecer”, assinala o juiz.

Vallisney decretou a prisão temporária, por cinco dias, dos ex-governadores José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz e também do ex-vice-governador do DF e ex-assessor do presidente Michel Temer, Nelson Tadeu Fillipelli. Outros sete investigados tiveram prisão determinada – Maruska Lima de Souza Holanda, Nilson Martorelli, Afrânio Roberto de Souza Filho, Jorge Luiz Salomão, Sérgio Lúcio Silva de Andrade, Francisco Cláudio Monteiro e Fernando Márcio Queiroz.

O executivo Rodrigo Leite relatou à Procuradoria que ingressou na Andrade Gutierrez em 1998 como estagiário, depois assumiu o cargo de engenheiro de obras. Em 2008 foi transferido para Goiás para trabalhar na obra da Ferrovia Norte-Sul. No ano seguinte assumiu o cargo de gerente comercial e foi transferido para Brasília, ficando diretamente subordinado ao superintendente comercial Rodrigo Lopes e ao diretor Clóvis Primo.

Sobre as obras do Mané Garrincha e do corredor de transportes BRT Sul (Gama) disse que foi informado na empresa ‘que havia um compromisso de pagamento de propina de 2% para o PT e 2% para o PMDB dos recebimentos da Andrade Gutierrez e que caberia a ele a incumbência de realizar tais pagamentos’.

Leite contou que foi apresentado ‘aos operadores’ de Agnelo Queiroz e Tadeu Fillipelli, que identificou, respectivamente, como Jorge Salomão e Afrânio Roberto de Souza, ‘para quem os pagamentos deveriam ser efetuados’.

“Neste caso, o depoente tinha o controle global dos pagamentos de propina”. confessou Rodrigo Leite. “A cada medição a Andrade Gutierrez teoricamente deveria pagar 4% de propina calculados sobre o valor do depósito recebido. No entanto, a AG tinha dificuldade de gerar o dinheiro correspondente à divida da propina.”

O executivo afirmou ter realizado ‘aproximadamente’ 19 pagamentos em espécie para Afrânio e Salomão.

“No início, ambos os operadores pegavam os pagamentos juntos, mas a partir de
determinado momento apenas um deles comparecia e pegava o valor relativo aos dois partidos.”

O outro executivo, Carlos José de Souza, desde 1985 na empreiteira, onde ingressou como ‘auxiliar de patrimônio’ até chegar ao cargo de gerente comercial do Distrito Federal e Tocantins, disse que ‘foi demandado que se fizesse o mínimo necessário para a realização da Copa das Confederações (em 2013) e que isso seria objeto de urna nova licitação para atender às exigências da FIFA para a Copa do Mundo’.

Ele disse ter presenciado durante ‘uma reunião com Rodrigo Lopes, Clóvis Primo e o então governador José Roberto Arruda a exigência por parte do governador depois de já iniciado o procedimento licitatório que a OAS integrasse o consórcio, mas não houve tempo hábil’.

VEJA OS DEPOIMENTOS DOS EXECUTIVOS DA ANDRADE GUTIERREZ:

COM A PALAVRA, PMDB, ARRUDA, AGNELO, FILIPPELLI, ANDRADE GUTIERREZ E VIA ENGENHARIA
A reportagem do Estadão questionou o PMDB-DF, presidido por Nelson Tadeu Filippelli, mas não obteve resposta.
As defesas de José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz não foram encontradas para comentar a prisão.
A Via Engenharia disse que não vai se manifestar.
A Andrade Gutierrez afirmou por meio de nota que ‘segue colaborando com as investigações em curso dentro do acordo de leniência firmado pela empresa com o Ministério Público Federal e reforça seu compromisso público de esclarecer e corrigir todos os fatos irregulares ocorridos’.