Trumpismo é um desafio à implantação do ESG nas empresas brasileiras?

Trumpismo é um desafio à implantação do ESG nas empresas brasileiras?

Rodrigo Albuquerque Maranhão de Oliveira*

29 de janeiro de 2021 | 09h00

Rodrigo Albuquerque Maranhão de Oliveira. FOTO: DIVULGAÇÃO

A conjuntura de 2020 obrigou o mundo a se conectar por telas e converter a ponta dos dedos nas novas cordas vocais. Encontros foram ressignificados e a semântica de termos como distância e privacidade foram definitivamente redefinidos.

As circunstâncias excepcionais e duradouras exigiram esforços e avanços tecnológicos para os quais não estávamos – como ainda não estamos – preparados social, coletiva e individualmente. Reagimos ao confinamento alternando angústia com esperança. Variamos nossas emoções entre a satisfação de termos mais tempo para conviver com nossas famílias e a ansiedade gerada pelo medo que a incerteza prolongada trouxe. Como animais, diante do medo, também atacamos.

Se na última década a padronização do comportamento social foi potencializada pelos filtros-bolha das redes sociais, o isolamento exigido meses a fio durante a Pandemia e a concentração da comunicação por meios eletrônicos revelou que a recorrência de divergências é maior do que antes pensada, e essas foram prontamente alçadas ao patamar de conflitos.

Por mais de trinta anos, o Brasil tem sido desafiado a consolidar a transição democrática e a superar a recessão econômica da década de 1980. Desafios estes que não são pequenos. Embora com inegáveis avanços, os solavancos que acompanhamos, em especial a partir de 2014, servem de alerta para que entendamos que tais conquistas não são definitivas. O atraso brasileiro em termos de estrutura tecnológica, cultura empresarial, solidez macroeconômica e papel das instituições não deve ser ignorado. Ainda temos um longo caminho a trilhar.

Embora as Universidades públicas e privadas busquem contribuir com pesquisas e reflexão crítica para que o País encontre – ou recupere – sua vocação econômica e desponte (além do folclore) como importante ator global, a falta de coordenação e trabalho conjunto destes com governos e empresários nos deixa distantes de estabelecermos a “tripla hélice” pesquisada por Mariana Mazzucato nos Estados Unidos – que também ocorre na Coreia do Sul e outros países -, onde Universidades desenvolvem pesquisas para atender a demanda local que são revertidas em inovação à serviço da sociedade, permitindo com que empresas disponibilizem ao mercado produtos de alta aceitação e recebam encomendas do próprio Governo. Em termos empresariais, o risco é baixo. A roda gira.

Não é o que vemos no Brasil. Aqui a cultura é de disputa, de atuação isolada. Entidades empresariais atuam em nome e defesa interna. Muitas Universidades partidarizam seus programas de pós-graduação e criam feudos, enquanto o Governo age como se não tivesse nada a ver com a história. No rosário de misérias, a culpa sempre é do outro.

Embora na primeira semana de janeiro deste ano o Instituto Butantan tenha anunciado a eficácia da “Vacina do Brasil”, todo o desenvolvimento tecnológico é estrangeiro. Foi feito por aqueles chineses que, até poucas décadas atrás, só fabricavam produtos de terceira qualidade, produzindo réplicas de tudo o que viam pela frente. De tanto copiarem, entenderam como se faz, desenvolveram cultura de aprendizagem e cresceram. Como cresceram! Não apenas na economia, mas em tecnologia e importância global. Isso só foi possível porque, de novo, criaram cultura.

Enquanto o Brasil patina na dificuldade de contabilizar seringas para a aplicação massiva das vacinas internacionais, continuamos depositando toda a nossa atenção, força e recursos em permanecermos vivos e com a economia inteira. Não temos tempo de pensar em implementar cultura empreendedora, de inovar. Não temos tempo de sonhar com novos tempos enquanto gastamos todos os recursos disponíveis para sobreviver.

Mudar, leitores e leitoras, exige tempo e persistência. Exige hábito, suor, dedicação. Enquanto o mundo caminha na Quarta Revolução Industrial, brigamos por agulhas e algodão. O tempo gasto em batalhas ideológicas virtuais que destroem relações antes pacíficas, poderia ser dedicado ao entendimento de que a diversidade descortina novas perspectivas. Enquanto nossa luta for pela unicidade de pensamento, não teremos espaço para pensar em desenvolver cultura de “(meio)-ambiente, social e governança” nas empresas brasileiras.

Há tempo para todas as coisas: tempo de falar e tempo de calar. Sempre, porém, é tempo de respeitar. Respeitar as individualidades, entender o papel e o momento da empresa no cenário local, decifrar características de colaboradores para utilizá-las da forma mais produtiva e saudável possível. Todos esses são desafios possíveis e relativamente simples de serem perseguidos.

O Trumpismo não é necessário ao Brasil, não representa nosso histórico como povo, não se assemelha ao perfil do homem cordial descrito por Sergio Buarque de Holanda. O comportamento de manada, gestores e gestoras, deve ser desencorajado em nossas organizações. Exclusões e bloqueios virtuais, cultura de cancelamento, propagação de fake news, julgamentos sumários nos âmbitos comportamental, político e judicial são condutas que não cabem no Estado de Direito. Tem havido um quê de comportamento coletivo antijurídico nessas condutas que, caso mantidas, podem fazer a construção da nossa identidade como povo ruir. O povo não deve ser Juiz. Sim, nos cabe contestar. Não cabe, contudo, insurgir. Há um limite bem claro entre protesto e insurreição. Há um limite muito definido entre liberdade de expressão e ofensa. Há uma diferença inegável entre civilidade e barbárie.

A depender de para onde olhemos, poderemos enxergar no Brasil civilidade ou barbárie, diversidade ou unicidade, atraso ou inovação, esperança ou desânimo. Devemos escolher o caminho que queremos seguir, a cultura que intentamos seja nossa identidade para o mundo. Podemos ser a vanguarda da inovação ambiental, podemos incutir nas relações empresariais o senso de responsabilidade, comprometimento e cordialidade com o qual já fomos descritos, podemos exportar um novo brazilian way de viver e fazer negócios. Ou podemos repousar resignados à categoria de sub-Trump. A escolha é nossa.

*Rodrigo Albuquerque Maranhão de Oliveira é especialista em Direito Empresarial no escritório Sotto Maior & Nagel. Doutorando e Mestre em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialista em Direito do Consumidor pela Universidade Cândido Mendes e em Direitos dos Contratos pela PUC/RJ. Bacharel em Direito pela Universidade Veiga de Almeida

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