Trotes assustam mãe de colaboradora que depôs na ação contra operador do PSDB

Trotes assustam mãe de colaboradora que depôs na ação contra operador do PSDB

Ao telefone, pessoa ainda não identificada, simulava crises de choro; para investigadores, zombaria foi uma tentativa de intimidação no curso do processo contra o engenheiro Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa entre 2009 e 2011 (Governos Serra e Alckmin)

Julia Affonso e Luiz Vassallo

30 Maio 2018 | 12h06

Paulo Vieira de Souza. Foto: ROBSON FERNANDJES/AE

A mãe de uma colaboradora da Operação Lava Jato, em São Paulo, passou a receber trotes depois que a filha prestou depoimento na investigação contra o ex-diretor da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A) Paulo Vieira de Souza, apontado como operador do PSDB. Nos telefonemas, o interlocutor, ainda não identificado, fingia crises de choro ao falar com a idosa, mãe da testemunha.

A zombaria ao telefone foi interpretada pelos investigadores como uma tentativa de intimidação da colaboradora.

Além desse episódio dos trotes, uma outra testemunha ligou no dia 17 para o Ministério Público Federal de São Paulo, também chorando, dizendo ter medo de depor. O homem, que acabou prestando depoimento em sala separada dos réus e sem a divulgação de suas imagens, relatou como ficou sabendo de desvios em programas de reassentamento da Dersa.

Este cenário levou à nova ordem de prisão de Vieira de Souza. Acusado pelo desvio de recursos de R$ 7,7 milhões da Dersa, entre 2009 e 2011 (governos Serra e Alckmin), ele foi preso nesta quarta-feira, 30, por ordem da juíza Maria Isabel do Prado, da 5.ª Vara Criminal Federal de São Paulo. Tatiana, filha do ex-diretor da Desa, também foi presa.

Um ex-chefe de departamento da companhia, Geraldo Casas Vilela, teve prisão decretada. Logo cedo, agentes da Polícia Federal foram à casa de Vilela, mas ele não estava. Seu advogado, Fernando Araneo, informou que Vilela está viajando, mas vai se apresentar à PF.

Além da ação penal por supostos desvios de R$ 7,7 milhões em reassentamentos para obras do Rodoanel Trecho Sul, Vieira de Souza é investigado por supostamente operar propinas para o PSDB.

Ex-executivos das empreiteiras Odebrecht, OAS e Andrade Gutierrez relataram à Polícia Federal terem feito repasses de 0,75% ao ex-diretor da Dersa no âmbito da construção do Rodoanel.

Em cooperação com autoridades suíças, a Lava Jato descobriu conta atribuída a Souza com R$ 113 milhões não declarados.

O ex-diretor da Dersa havia sido preso em 6 de abril. Ficou em regime preventivo até 11 de maio quando foi solto pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo.

Segundo a decisão judicial que manda prender o suposto operador tucano, a medida é necessária para ‘assegurar a instrução criminal’.

Na representação pela prisão de Vieira de Souza, o Ministério Público Federal sustentou as reiterações de ameaças por parte dos réus.

Em audiência no dia 18, o Ministério Público Federal já havia afirmado que uma testemunha – cujo nome está sob segredo – havia feito contato telefônico no dia anterior com a Procuradoria. “Após a testemunha entrar em contato, falou com o funcionário Emerson, o qual nos relatou que a testemunha estava chorando, com medo de vir à audiência pois temia que algo lhe acontecesse e temia encontrar os réus.”

“Orientei ao funcionário Emerson que ligasse para esta 5.ª Vara Federal Criminal para que a Justiça tomasse as providências necessárias a fim de garantir seu testemunho sem constrangimento”, afirmou o integrante da força-tarefa da Operação Jato na audiência.

Ex-funcionário da Dersa, o homem que se diz ameaçado afirmou ter trabalhado por 25 anos na empresa de capital misto, onde foi subordinado de outra acusada, Mércia Ferreira Gomes, e diz ter testemunhado irregularidades.

“Eu fazia a checagem de CPFs antes de realizar a sessão de dados de pagamentos. Ao fazer essa checagem, eu percebi que tinha uma divergência estranha. Algo que, enfim, nome que não batia, e alguma semelhança com o nome da pessoa que era minha chefe imediata, a Mércia Ferreira”.

A testemunha diz ter questionado Mércia sobre os desvios e recebido como resposta, tempos depois, um recado para ficar calado.

“Ela veio e eu senti como se fosse um pisão de pé. De uma maneira bem suave, sem ameaça. Ela falou: ‘ó, só te digo uma coisa, isso é bem maior do que você possa imaginar, então fica na sua’. E eu tenho uma tradição de ficar a minha mesmo”, narrou.

COM A PALAVRA, GERALDO ALCKMIN

Em seu primeiro ano de mandato, em 2011, Geraldo Alckmin determinou a implantação de uma política de governança na DERSA, o que incluiu a estruturação do Departamento de Auditoria Interna que, desde então, realizou investigações que desvendaram e confirmaram desvios e fraudes. Essas investigações internas ampararam o trabalho do Ministério Público Estadual e, posteriormente, do MPF. O governo Geraldo Alckmin sempre foi intolerante com qualquer desvio de conduta. Tanto que nenhum dos pagamentos apontados como irregulares resultaram de decisões tomadas em seu governo. Todos ocorreram entre 2009 e 2010 e os de 2011 referem-se a saldos residuais liberados na gestão anterior.

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