Tristeza não tem fim: uma doença, 50 mil mortos em três meses

Tristeza não tem fim: uma doença, 50 mil mortos em três meses

Moacir Assunção*

28 de junho de 2020 | 14h35

Moacir Assunção. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Manoel Messias de Freitas Filho era um homem simples, como diria Belchior,:“um cidadão comum, como esses que se vê na rua. Falava de negócios, ria, via show de mulher nua”. As fotos o mostram como um homem branco, de rosto largo, cabelos grisalhos e aparência saudável. Era porteiro aposentado e, de acordo com a mãe, dona Idália, com quem vivia em um apartamento típico de classe média, não saía muito de casa. Gostava mesmo era de “mexer com jogo e assistir TV”. Morador do bairro do Paraíso, na zona sul de São Paulo, ele, do alto dos seus 62 anos,  tinha hipertensão, diabetes e uma trombose mal curada.

No dia 10 de março desse ano, foi a um hospital próximo de sua casa, reclamando de dores nas pernas. Não tinha gripe, febre ou coriza. Por causa da trombose,  usava meias de compressão e, por isso, não andava muito. Seis dias depois, em 16 de março, estava morto, após idas e vindas, com os pulmões comprometidos.  O atestado apontou a causa mortis: “pneumonia, provável covid -19”. Possivelmente, ele contraiu a doença no hospital mesmo. Nos primeiros dias da doença esse estabelecimento, o Sancta Maggiore, chegou a figurar como um dos principais focos da pandemia no Brasil. Foi enterrado sem os cuidados que viriam depois, sem caixão lacrado ou recomendações especiais.

A mãe e o pai não foram ao enterro. Estavam internados com sintomas de covid-19, assim como uma irmã. A família ficou sabendo que ele havia morrido com a doença pela TV, para tristeza da irmã, Maria das Graças Freitas. “Falta de respeito e humanidade com a gente”. A mãe, chorosa, também lamentou: “A coisa mais triste foi perder meu filho para uma doença tão terrível. Além disso, me sinto abandonada, ninguém me explicou o que fazer para evitar a contaminação”, disse dona Idália. Ela, que tem 82 anos, passou pela triste experiência de enterrar um filho, algo que contraria o círculo normal da vida, quando se espera que os filhos enterrem os pais.

Quem foi Manoel Messias de Freitas Filho, chamado pelos amigos de Mané ou Messias, destacado nessas linhas? Foi, nada menos que o primeiro dos 50 mil brasileiros, vários outros Manoeis, Marcos, Pedros, Marias e tantos outros, que morreram de coronavírus até o dia que escrevo esse texto, meros três meses depois da primeira morte. Na mesma data, o Brasil ultrapassou um milhão de casos, tornando-se o segundo País do mundo, depois dos EUA, em número de infectados e de óbitos. Não por acaso, os dois países são governados (?) por pseudo-líderes que jamais reconheceram a ferocidade do vírus, descrito como “uma gripezinha”.

Um rio de sangue e de tristeza, temperado com muito descaso e enterros solitários em covas coletivas, separa dois Messias, Manoel e Jair Messias Bolsonaro. O primeiro, um cidadão comum, sem nenhuma vocação para ser pioneiro, e o segundo o presidente inepto e despreparado que respondeu, de forma desafiadora, com um sonoro “e daí?” quando um repórter o questionou sobre as vítimas da doença. Arrematou com “o que quer que eu faça? Sou Messias, mas não faço milagres”. O primeiro Messias também não os fazia, ao contrário do xará que viveu há  mais de 2 mil anos, mas, certamente, esperava um outro comportamento do homem que foi eleito para atender aos milhares que poderiam estar vivos se houvesse um líder que assumisse suas responsabilidades. Ele, claramente,  não tinha “histórico de atleta” para resistir à pandemia.

As mortes não trouxeram nenhum aprendizado ao presidente e sua entourage. Manoel Messias foi só o primeiro. Na sequência, viriam milhares de outros, um pouco mais velhos, um pouco mais jovens, crianças e até bebês. Homens e mulheres por todo o País. Tínhamos visto as cenas estarrecedoras de caminhões do Exército italiano carregando corpos. Vimos, também, cadáveres sendo sepultados em covas coletivas em parques americanos. Isso nos comoveu, mas não deu tempo de ficarmos insensíveis. Na capital paulista, observamos, um dia, a cena terrível de centenas – talvez mais de mil –  covas abertas no maior cemitério paulistano, lado a lado, na terra úmida, esperando ocupantes.

Em Manaus, olhamos, assustados, caminhões frigoríficos parados ao lado de necrotérios, prontos para empilhar corpos. De tão horríveis, as cenas parecem ter nos entorpecido. Em outra ocasião, numa patética reunião que lembrava uma discussão de boteco, um ministro da Saúde, postado em meio a dois outros colegas, demonstrava claro espanto e surpresa diante do linguajar e das atitudes de um, que chamava ministros do STF de “vagabundos”, ameaçando prendê-los, e outro que recomendava “passar a boiada” e desregulamentar leis ambientais, aproveitando que a imprensa só falava de coronavírus. Em suma, nestes três meses, descobrimos ser verdade a máxima de Nelson Rodrigues: “No Brasil, o inferno tem subsolo”. Pobres de nós, pobres dos Manoéis, pobres dos Paulos, das Marias e das Suzetes! Aprendemos, da pior forma, que nossas mazelas sempre podem ser piores do que parecem.

*Moacir Assunção é jornalista, historiador e professor de Jornalismo na Universidade São Judas, em São Paulo. Também é autor ou coautor de 12 livros, dois deles – Os homens que mataram o facínora (Record, 2007) e São Paulo deve ser destruída (Record, 2015) – finalistas do Prêmio Jabuti

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