Tribunal recebe denúncia contra coronel por suposto desvio de pneus, tablets e celulares doados pela Receita ao Exército

Tribunal recebe denúncia contra coronel por suposto desvio de pneus, tablets e celulares doados pela Receita ao Exército

Superior Tribunal Militar acolhe acusação do Ministério Público Militar contra oficial que também é pastor e teria vendido componentes tidos por 'inservíveis'

Paulo Roberto Netto

13 de dezembro de 2019 | 05h00

Um tenente-coronel do Exército deverá ser processado por suposto desvio de doações feitas pela Receita Federal. Essa foi a decisão do Superior Tribunal Militar (STM), ao receber a denúncia contra o oficial pelo suposto crime de violação do dever funcional, com base no artigo 320 do Código Penal Militar (CPM).

Foto: FABIO MOTTA/AGENCIA ESTADO/AE

Inicialmente, em 2016, o Ministério Público Militar instaurou procedimento investigativo com base em uma denúncia anônima, com o objetivo de averiguar supostas destinações irregulares de bens doados pela Receita ao Comando da 10.ª Região Militar (RM), sediado em Fortaleza.

Recurso em Sentido Estrito 7001052-89.2018.7.00.0000

A sessão de julgamento foi transmitida ao vivo

Durante as investigações, segundo informou o STM, ‘constatou-se que inúmeros bens que foram efetivamente doados pela Receita não haviam sido incorporados ao patrimônio da 10.ª RM’.

“De fato, perícias constataram que automóveis, pneus, materiais de informática, tablets, eletroeletrônicos, celulares e outra infinidade de produtos doados não foram localizados e, consequentemente, não foram incorporados ao patrimônio militar.”, assinala o Ministério Público Militar.

Posteriormente, descobriu-se que os bens foram encontrados em instituição beneficente do qual o acusado compunha o corpo dirigente, na qualidade de pastor e na qual, posteriormente, a sua mulher e passou a ser a presidente.

Embora o material doado fosse considerado ‘inservível’, alguns componentes foram incorporados à entidade e outros foram vendidos pelo valor de R$ 13.400,00, sendo os valores revertidos em favor da própria instituição.

Em setembro de 2018, as acusações contra o militar foram encaminhadas para o juiz federal da Auditoria de Fortaleza. No entanto, o magistrado rejeitou a denúncia por considerar que ‘não havia fundamentação legal para tal e por ausência da justa causa necessária para dar início à ação penal’.

Após a negativa, o Ministério Público Militar recorreu ao Superior Tribunal Militar pedindo para que a mais alta corte militar do país reconsiderasse a decisão de primeira instância.

No julgamento do recurso, ocorrido no último dia 3 de dezembro, o Tribunal decidiu, por unanimidade, receber a denúncia contra o tenente-coronel e o processo segue agora na Auditoria de Fortaleza.

In dubio pro societate

“Por certo, embora não se admita a instauração de processos temerários e levianos ou despidos de qualquer sustentáculo probatório, nessa fase processual deve ser privilegiado o princípio do in dubio pro societate”, afirmou o relator do caso no STM, ministro Carlos Augusto de Sousa.

Em contrapartida, o ministro declarou ‘não ser cabível ao magistrado de primeira instância cercear o jus accusationis (direito de acusar) do Estado, salvo se manifestamente demonstrada a carência de justa causa para o exercício da ação penal, o que não se verifica nesta toada’.

“No caso presente, pode-se dizer que a denúncia descreveu os fatos praticados, em tese, criminosos, individualizando as condutas do indiciado até mesmo de forma exaustiva para a complexidade da causa. Assim, compatível com a fase processual, além de adequada a garantir o exercício da ampla defesa e do contraditório”, afirmou o relator.

Ao acompanhar o voto do ministro Carlos Augusto, o Tribunal entendeu que o oficial cometeu, em tese, o crime de violação do dever funcional, uma vez que há indícios de que o acusado tenha obtido vantagens pessoais para ele e a mulher, por meio das supostas transações.

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