Tribunal condena mulher por manter apenas a feijão e arroz ex-namorado de 72 anos

Tribunal condena mulher por manter apenas a feijão e arroz ex-namorado de 72 anos

Desembargadores da Primeira Câmara do Tribunal de Justiça de Mato Grosso impõem à ré pena restritiva de direitos e multa por 'negligenciar saúde' de idoso, encontrado em uma quitinete sem fogão nem geladeira no município de Barra do Bugres, a 150 quilômetros de Cuiabá

Marina Dayrell

12 Fevereiro 2019 | 12h29

Foto: Pixabay

A Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso condenou uma mulher por se apropriar da aposentadoria de um idoso de 72 anos e deixá-lo em ‘condições de vulnerabilidade’, em Barra do Bugres, município com cerca de 35 mil habitantes a 150 quilômetros da capital Cuiabá. Ela se apresentava como ex-namorada da vítima e deverá cumprir pena restritiva de direitos, a ser definida pelo Juízo da Execução Penal, e pagar multa – 10 dias-multa, à razão de 1/30 do valor do salário mínimo vigente à época dos fatos, em 2012, pela prática do delito.

Segundo informações do processo, o psicólogo, a assistente social e o advogado do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) de Barra do Bugres relataram que os documentos pessoais, o cartão do benefício e parte do valor que o idoso recebe ficavam sob responsabilidade de Antonia Conceição Nascimento.

Os profissionais disseram que na quitinete onde o aposentado mora foram encontrados apenas feijão e arroz, mas nunca leite, frutas, verduras, carnes ou legumes. De acordo com o depoimento deles, na residência não há fogão nem geladeira, apenas uma cama e um colchão velho.

Ainda segundo os relatos dos profissionais do Centro de Referência de Assistência Social, o aposentado recebia apenas uma marmita que deveria valer para a alimentação do dia inteiro.

Eles afirmaram que, em certa ocasião, o idoso foi internado ’em situação de falta de cuidados e, segundo a equipe técnica do hospital, estava em situação de miíase – doença ocasionada pela proliferação de larvas de moscas em cavidades do corpo’.

De acordo com o Tribunal de Justiça, a ré foi chamada ao Cras e orientada sobre a necessidade de providenciar móveis para a casa, além de alimentos e medicamentos.

No entanto, segundo o órgão, ela ‘foi agressiva, disse estar com pressa e declarou que a vítima repassava o dinheiro para ela por vontade própria’.

A mulher também teria dito que ‘paga o próprio aluguel e compra outras coisas para o seu sustento com o dinheiro, pois o ex-namorado permitia’.

O desembargador Paulo da Cunha destacou que ‘permitir a absolvição da acusada seria desmerecer todo um trabalho sério realizado durantes meses pelos Centros de Assistência Social, razão pela qual a imposição da condenação é medida necessária’.

“Ademais, destaca-se a informação trazida pela assistente social de que havia uma ‘dificuldade de tomar maiores providências ao caso, visto que o idoso não oferta denúncia [contra a ex-namorada], sempre que as equipes iniciam um acompanhamento, o idoso é retirado do endereço que reside e ficamos sem nenhuma informação sobre sua localização’, o que reforça ainda mais o desprezo perpetrado pela recorrida para com o idoso, sendo que a mesma tentava escondê-lo dos órgãos competentes para acompanhar o caso e providenciar a devida assistência.”

O Estatuto do Idoso prevê que é crime ‘expor a perigo a vida e a saúde do idoso, negligenciando os cuidados que lhe são indispensáveis, deixando-o em condições precárias de higiene e cuidados em geral’.

COM A PALAVRA, A DEFESA

A reportagem está tentando contato com a defesa de Antonia Conceição Nascimento. O espaço está aberto para manifestação.

Segundo os autos do processo, Antonia Conceição alegou que o idoso repassava o dinheiro para ela ‘por vontade própria’.

Antonia Conceição também disse pagava o próprio aluguel e comprava ‘outras coisas para o seu sustento com o dinheiro, pois o ex-namorado permitia’.