Três passos para melhoria do diagnóstico e tratamento da endometriose pelo SUS

Três passos para melhoria do diagnóstico e tratamento da endometriose pelo SUS

Maurício Simões Abrão*

26 de fevereiro de 2020 | 04h00

Maurício Simões Abrão. FOTO: DIVULGAÇÃO

A endometriose é um grave problema de saúde pública. Trata-se de uma doença crônica caracterizada pelo crescimento indevido e migração do endométrio, o tecido que reveste o útero, para outros órgãos da região abdominal. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estimada que sete milhões de brasileiras sofram da doença, que atinge de 10% a 15% das mulheres em idade reprodutiva, sendo uma das principais causas da infertilidade.

A endometriose provoca ainda dores durante as relações sexuais, sangramentos e cólicas intensas, potencialmente incapacitantes, que interferem na rotina diária e no trabalho. Um estudo apontou que a queda na produtividade entre as pacientes com a doença pode ser até 38% maior.

A endometriose  é uma das maiores causas de hospitalização feminina, e motivou, no Brasil, 71.818 internações entre 2009 e 2013. Uma pesquisa apontou que, na Europa, o custo médio de cuidados com a saúde e tratamento era de 3.131 euros; já o custo decorrente da perda de produtividade era duas vezes maior: 6.238 euros.

Entre a manifestação dos primeiros sintomas e a confirmação do diagnóstico, passam-se em média de sete a 12 anos. Nesse período, as mulheres padecem com uma doença que pode causar dores incapacitantes e as impede de realizar sonhos profissionais e pessoais. Precisamos reverter esse panorama, e o Sistema Único de Saúde (SUS) tem um papel fundamental nesse sentido.

Mas, para isso, o SUS tem ainda alguns passos a cumprir. O primeiro é o investimento em capacitação dos profissionais de saúde, para que estejam mais atentos aos  sinais de alerta e, assim, identifiquem com mais agilidade os casos suspeitos, evitando que as pacientes permaneçam sete anos no limbo da falta de diagnóstico. Muitas vezes, os médicos – não apenas no SUS, aliás – nem sequer consideram que a encometriose pode ser a causa dos sintomas manifestdos pelas pacientes.

O segundo passo envolve  a formação de médicos e radiologistas. A endometriose pode ser diagnosticada por ultrassom endovaginal com preparo intestinal prévio, um método não-invasivo e indolor, que não requer internação, diferentemente da cirurgia por laparoscopia, outra alternativa usada na detecção. Entretanto, poucos ultrassonografistas receberam o treinamento adequado para identificar a doença dessa forma. Esse treinamento pode ser realizado rapidamente, em até três dias.

O investimento, por parte do SUS, nessa capacitação certamente reverterá em otimização de recursos.  Embora nem todos os hospitais realizem laparoscopia, a grande maioria conta com equipamentos de ultrassonografia, podendo utilizá-los na detecção da doença, acelerando sua descoberta e evitando cirurgias e procedimentos desnecessários.

Só o diagnóstico não basta; as pacientes precisam de tratamento. Para tanto, necessitamos de hospitais de excelência. Este é, aliás, o terceiro passo a ser cumprido pelo SUS. É necessário identificar e adaptar os hospitais com potencial para receberem e darem vazão aos casos de endometriose comprovados, evitando a sobrecarga de hospitais melhores e trazendo mais celeridade ao tratamento. Os hospitais universitários são fortes candidatos a cumprir este papel.

A endometriose, embora não ameace a vida, merece toda atenção. Mais investimento em capacitação, diagnóstico e tratamento certamente reverterão em menores custos globais, menor impacto econômico devido à perda de produtividade e, principalmente, mais qualidade de vida para sete milhões de brasileiras. Não podemos deixar para depois.

*Maurício Simões Abrão, professor Associado do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP e chefe do Setor de Endometriose do Hospital das Clínicas da USP de São Paulo. É fundador da Clínica Medicina da Mulher, médico e gestor do serviço de Ginecologia da BP – Beneficência Portuguesa de São Paulo

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