Três letras para mudar o mundo

Três letras para mudar o mundo

José Renato Nalini*

24 de abril de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O planeta cansou-se de pedir socorro, exaurido pela crueldade do ser humano. Durante décadas os cientistas pregaram no deserto, pois suas vozes não ecoaram nas consciências insensíveis. Há quem sustente que o tempo de reversão já passou e que a sorte da humanidade já foi selada. E há os otimistas, que acreditam que o limite para reagir ainda não foi ultrapassado. Para estes, a esperança está nessas três letras que, levadas a sério, podem ainda salvar a aventura existencial humana sobre a Terra.

São ESG, da sigla em inglês Environment, Social e Governança. Os primeiros persuadidos foram os empresários de bem. Eles perceberam que o negócio da empresa não poderia ser apenas fazer negócios. O lucro é legítimo, sim, mas não é só ele que deve motivar a atuação dos empreendedores.

Esses líderes lúcidos e sensíveis assumiram compromissos para atender às urgências do convívio relativas ao meio ambiente, às desigualdades sociais e à governança corporativa.

Em relação ao E, as atitudes podem ser exemplificadas pela adoção de medidas da preservação dos recursos naturais, a redução de emissões dos gases de efeito estufa e gás metano, em suas instalações, incentivar a maior eficiência de uso de energia de preferência limpa, a diminuição da poluição e a gestão de resíduos e efluentes.

No tocante ao Social, a atitude dos empresários afinados com essa filosofia reside na adoção de políticas de inclusão de minorias em seus quadros de funcionários, maior acesso de mulheres, negros e LGBT+, além de pessoas especiais a postos de comando e nos diversos conselhos, o engajamento e treinamento de empregados, respeito aos direitos humanos e trabalhistas, garantia de privacidade e proteção de dados dos trabalhadores e fornecedores. Mais do que isso, respeito aos direitos humanos e trabalhistas, garantia de privacidade e proteção de dados dos trabalhadores e fornecedores e melhor relação e maior contribuição para a comunidade local, por meio de filantropia e de projetos de impacto social.

A governança corporativa implica em independência do conselho de administração da empresa ou da instituição, a diversidade na composição do conselho de administração e dos comitês de auditoria fiscal e de ética. Preocupa-se, também, com o cumprimento de princípios éticos e veto a práticas anticompetitivas e com a transparência e prestação de contas aos funcionários e à comunidade.

O mundo civilizado abraçou a ideia, pois tem noção de que o assunto não se resume a modismo, porém implica em proteger a Terra e garantir que ela continue a ser o habitat amigável das futuras gerações.

Os grandes Fundos investidores dos maiores recursos mundiais, ou seja, uma ordem de trinta trilhões de dólares, cujo destino serão as empresas adotantes e, mais do que isso, observantes da tríade ESG.

As métricas de risco empresarial, que inspiram os investimentos, incluem os fatores ESG. Além de reforçar o valor das ações nas bolsas de valores, o cultivo da cultura ESG injeta prestígio à reputação da empresa.

É considerável o vulto de trinta trilhões de dólares em recursos reservados para as empresas que assumem compromisso com a sustentabilidade. Aliás, sustentabilidade inclui os três conceitos – ecologia, social e governança – e é parte relevantíssima da agenda mundial contemporânea.

Também um quarto das Bolsas de valores no mundo já tornaram obrigatória a adoção da regra ESG. Também mais de 80% dos consumidores no planeta asseguram que as empresas devem se engajar fortemente na preservação do meio ambiente, de acordo com a Pesquisa Nielsen de 2017.

O resultado é que as ações das empresas comprometidas com a meta ESG tiveram maior valorização nas bolsas dos Estados Unidos, da Europa e do Brasil, do que as que não aderiram a esse pacto salvífico.

O Brasil ainda está em déficit, pois apenas 62 empresas são signatárias dos Princípios para o Investimento Responsável – PRI, iniciativa global que congrega mais de três mil empresas e instituições financeiras filiadas à sigla. A tendência é de que muitas outra as sigam, pois quando se compara o índice Ibovespa e o Índice de Sustentabilidade Empresarial – ISEB3, vê-se a superioridade do prestígio e procura das ações vinculadas à ESG: índice Bovespa foi de 202% e o ISE chegou a 269%.

É importante que as escolas propiciem a seus alunos noção do que significa ESG, três palavras que têm o condão de transformar – para muito melhor – o mundo em que estamos. A humanidade precisa de esperança e de ação, principalmente por parte da juventude, aquela que será a mais afetada pelo maltrato infligido à natureza, fruto de ignorância ou de cobiça, ou, o que é mais comum, de ambos em cruel conluio.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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