Transtornos mentais e reality show: uma análise crítica e abrangente

Transtornos mentais e reality show: uma análise crítica e abrangente

Mayara Martins*

24 de outubro de 2020 | 07h30

Mayara Martins. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados em julho de 2019, cerca de 86% dos brasileiros possuem algum tipo de transtorno mental. Entre os mais comuns estão: depressão e ansiedade. Já no que diz respeito ao  transtorno de personalidade borderline (TPB), doença caracterizada por um quadro de instabilidade emocional, estima-se que a mesma atinja cerca de 6% da população mundial.

“Ele é um transtorno de origem orgânica, ou seja, mental-psiquiátrica e não mental-psicológica. O paciente apresenta uma série de sintomas psicológicos, como depressão, ansiedade e alterações de humor. Quando falamos de borderline, estamos falando de alguém que já está no seu limite”, explicou o psicólogo Alexandre Bez em entrevista ao site da Contigo.

O transtorno está em evidência, principalmente nas redes sociais, devido a participação de uma modelo em um dos realitys mais conhecidos do país. Esta, diagnosticada e em tratamento, teve alguns episódios graves de descontrole emocional dentro do reality, o que levantou uma série de dúvidas a respeito da seguinte questão: Pessoas com transtornos mentais deveriam participar de reality shows?

A semiótica cultural da exposição: o fascínio pela atração e o experimento humano

O rótulo social de “cultura inútil” que paira sobre os reality shows nada mais é do que uma questão, limitante, de perspectiva. Analisando sob a óptica de experimento humano, creio que poucas situações testem o limite (físico, mental e psicológico) da nossa espécie de maneira tão clara e estrategicamente elaborada quanto os reality shows.

A meu ver, duas vertentes são as grandes responsáveis pelo fascínio de boa parte da população brasileira por esse segmento de atração: a identificação e a projeção de comportamentos e vontades pessoais. Uma vez que o público se depara, por exemplo, com um jovem humilde e batalhador que estuda e trabalha meio período, vendendo picolé na praia aos fins de semana para descolar uns trocados, ocorre uma identificação por boa parte da população que também enfrenta uma rotina semelhante no seu dia a dia, logo, ocorre a representatividade que tende a levar o telespectador a torcer por esse rapaz.

Por outro lado, a troca constante de ofensas e xingamentos de uma pessoa para com a outra, podem despertar no telespectador a projeção da expressão da ira mediante algo que esteja acontecendo em seu círculo social naquele determinado momento. Em outras palavras, o funcionário que é constantemente humilhado por seu chefe – e que precisa do emprego, por isso não pode ofendê-lo de volta – projeta essa raiva na agressividade do participante, podendo assim se sentir mais saciado.

Desta forma, o telespectador consegue ver e identificar suas próprias questões existenciais como: vazio, insegurança, tristeza, euforia, competitividade, entre outros, nos participantes, o que o torna um fã, em potencial, da atração. 

A socialização dos portadores de transtornos mentais e o risco de exposição a tortura psicológica

Neste tópico vale ressaltar o dado apresentado logo no início desta análise: segundo informações da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados em julho de 2019, cerca de 86% dos brasileiros possuem algum tipo de transtorno mental. Dito isto, creio que existe a necessidade de não só normalizar, mas também promover a socialização destas pessoas torna-se um tanto quanto óbvia. A meu ver, embora cada caso seja um caso, aqueles que possuem transtornos mentais não só podem como devem participar de reality shows – claro, tendo o aval e a assistência/orientação psicológica – e/ou de qualquer outra atividade que envolva convívio social. A solução para que este se faça da maneira mais assertiva e saudável possível está no acesso à informação e não no isolamento e/ou exclusão dos indivíduos.

Estamos atravessando um contexto histórico no qual as doenças mentais ainda estão ganhando conhecimento público e uma boa parcela da população ainda menospreza doenças como a depressão, acreditando que a cura para este mal pode estar na religião e/ou resume uma condição, por muitas vezes psiquiátrica, a “desculpa de preguiçoso”.

Falta informação e falta mente aberta para receber, assimilar e repensar condutas diante desta informação. E dentro dos reality shows não poderia ser diferente. Até pouquíssimos anos atrás, quando as doenças mentais não estavam em pauta, pronunciar ofensas como “louca” e “surtada” – que hoje uma parcela da população tem o conhecimento de que podem se tornar gatilhos fortíssimos – para um participante que estava em meio a uma crise de ansiedade/depressão, era tido como normal. Uma provocação aceitável e que fazia “parte do jogo”. Agora, por mais furiosa que a outra pessoa esteja, já é possível notar uma cobrança, por parte do público, de que haja uma postura de respeito, tolerância e consciência para com os comportamentos característicos de cada transtorno.

O papel das emissoras: da seleção de elenco ao esclarecimento público  

Uma vez que a equipe responsável pela seleção de elenco dos participantes de um reality show opta por incluir na atração uma ou mais pessoas que possuem transtornos mentais, uma série de medidas precisam ser adotadas para fazê-lo de maneira correta e ética, tais como:

  • Oferecer assistência psicológica 24h, todos os dias – colocando a saúde mental no mesmo patamar de relevância da física;
  • Manter a direção do programa sempre atenta diante das orientações dos profissionais que estiverem fazendo o acompanhamento dos casos, visto que, mediante a recomendação destes, o participante pode precisar deixar o reality devido ao risco de maiores danos psicológicos;
  • Colocar a saúde mental dos envolvidos em primeiro lugar e, em segundo, a audiência – invertendo a ordem do “jogo de interesses”;
  • Oferecer uma espécie de “aula” – ministrada por psicólogos, psiquiatras e quem mais for necessário na área da saúde mental – para todos os participantes, logo no primeiro dia de confinamento, a fim de explicar mais sobre os transtornos ali presentes – sem expor ninguém, claro. Apenas buscando oferecer conhecimento e instrução coletiva. Desta forma, todos ganham. A emissora, por sua iniciativa de responsabilidade social – que certamente será bem vista pelo público. O elenco, por ter ferramentas que o ajudarão a discernir entre um possível comportamento “fake” e uma reação típica advinda de uma crise. E, por fim, o público-alvo do programa, que ainda é carente de informação sobre o assunto e ganhará mais uma fonte, confiável, de informação.

Por fim, ainda destaco que cabe as emissoras e aos diretores responsáveis pelos reality shows ter consciência de que o entretenimento termina onde a doença começa e, o ato de explorar midiaticamente o sofrimento emocional de uma pessoa, tornando-a uma “atração de circo” em prol de subir alguns pontos em audiência, além de sádico, é desumano e baixo.

*Mayara Martins é jornalista e escritora. Graduou-se em jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 2017, e é autora do livro Não Somos Silêncio, que retrata casos de violência física, verbal e sexual contra a mulher

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: