Transparência e inventividade

Transparência e inventividade

Cassio Grinberg*

12 de junho de 2020 | 10h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

A Bridgewater, maior empresa de hedge funds do mundo (mesmo com as perdas da covid, administra mais de US$ 150 bilhões), tem uma cultura interna baseada em transparência radical.

São comuns na empresa reuniões com mais de 200 pessoas, gravadas em vídeo, onde são ranqueados, por exemplo, os piores gerentes de áreas — que, diante dos demais, precisam lidar com adjetivos francos. E sabe o que é mais interessante? As pessoas gostam de receber essas críticas. E por que gostam? Porque elas crescem com elas.

Na Bridgewater, você nunca verá dados reavaliados para provar um determinado ponto, e sim pontos reavaliados para melhorar determinados dados. O próprio CEO, Ray Dalio, conta que já recebeu emails do tipo: “Ray, você mandou muito mal na reunião de hoje. Se não se preparou, por que não cancelou, em vez de nos fazer perder tempo?”.

E agora, é o próprio Ray Dalio quem está propondo o modelo de transparência radical ao mundo: em recente entrevista ao fundador da TED Talks, o CEO da Bridgewater nos mostra como, com a covid, instantaneamente entramos em uma depressão semelhante à de 1929 — com a geração da maior dívida pública de todos os tempos (mas também com a maior redistribuição de renda realizada até então). Ele também nos lembra como os anos seguintes à depressão de então foram capazes de promover uma mudança estrutural no capitalismo — algo que, segundo ele, estamos precisando mais do que nunca. E que dependerá de inventividade.

Muitas marcas já se deram conta disso, e vêm usando a criatividade para propor uma nova relação com o mundo: seja através da preservação do meio ambiente (Patagonia, Reserva, Natura, Lego), de um nível de serviço fora da curva (Bonobos, Zappos), de uma experiência acolhedora (Ben&Jerry’s, Starbucks), ou de um modelo de reciprocidade (TOMS, Warby Parker). E tudo indica que é com essas marcas — que devolvem para a sociedade — que a nova geração de consumidores desejará se relacionar depois que tudo passar.

Acostumado a melhorar através da transparência crítica, Ray Dalio está neste momento sendo generoso o suficiente para dividir um pouco dessa verdade conosco. Mas será que estamos dispostos a escutar e desaprender?

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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