Trânsito cria um exército de mutilados durante a pandemia

Alysson Coimbra de Souza Carvalho*

16 de julho de 2020 | 05h00

Alysson Coimbra de Souza Carvalho. FOTO: DIVULGAÇÃO

A pandemia do novo coronavírus colocou em evidência uma categoria profissional que vem sofrendo há anos com a precarização das condições de trabalho. Os motofretistas, tão vitais para garantir que a economia continue girando em tempos de recessão, estão perdendo a vida nas ruas brasileiras para permitir que as pessoas cumpram o isolamento social. O número de indenizações pagas pelo Seguro DPVAT nos três primeiros meses deste ano cresceu 19% na comparação com o mesmo período de 2019. No primeiro trimestre de 2020 foram pagas 89 mil indenizações no país.

Apesar das motocicletas serem apenas 29% da frota, elas responderam por 79% das indenizações pagas entre janeiro e março deste ano. No período, o trânsito deixou 49.770 motociclistas inválidos e 4.785, mortos, segundo levantamento da Seguradora Líder, a responsável pelo pagamento do DPVAT.

O relatório mostrou o aumento de 22% dos números de casos por invalidez no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o ano passado. A maior parte destas vítimas é jovem. A insegurança no trânsito está criando um exército de jovens inválidos. Precisamos ter ações contundentes para preservar vidas voltadas aos motoristas profissionais, por isso lutamos tanto contra a flexibilização do Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

Com salários baixíssimos, muitos destes profissionais estão submetidos a jornadas exaustivas e se arriscando no trânsito para conseguir fazer o maior número possível de entregas e, assim, garantir uma renda mínima. Neste momento, precisamos criar, por meio de políticas públicas, garantias para essa categoria e, com isso, melhorar a segurança no trânsito brasileiro como um todo.

O impacto dessas mortes não se reflete apenas no Sistema Único de Saúde e na Previdência Social, mas também na perda de força de trabalho. Mutilados em acidentes, muitos profissionais não conseguem se recolocar no mercado de trabalho e engrossam a lista de aposentadorias precoces por invalidez. É um problema que atinge toda a sociedade, principalmente os jovens.

Precisamos garantir que esses profissionais tenham acesso a todos os equipamentos de proteção individual e a melhores condições de trabalho para que não se tornem vítimas do trânsito, desencadeando uma série de problemas sociais e econômicos. Preservar vidas deve ser o Norte de todas as políticas públicas para o trânsito.

*Alysson Coimbra de Souza Carvalho é médico especialista em Medicina de Tráfego e coordenador da Mobilização de Médicos e Psicólogos Especialistas em Trânsito

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