Transformação digital: uma revolução mais cultural do que tecnológica

Transformação digital: uma revolução mais cultural do que tecnológica

Vinicius Marchese*

11 de dezembro de 2020 | 06h00

Vinicius Marchese. FOTO: DIVULGAÇÃO

O que você pensa quando escuta o termo “transformação digital”? Muitos de nós associamos este termo imediatamente a uma mudança tecnológica. No entanto, a transformação digital está diretamente associada à mudança cultural, em como as pessoas lidam com o digital. A transformação digital acontece quando as tecnologias já existentes são tão bem exploradas, que a evolução passa a ser um processo natural. E isso tem a ver com a vida cotidiana de todas as pessoas, de todas as profissões.

Como engenheiro e presidente do CREA, tenho insistido na inovação e na transformação digital como mola propulsora do desenvolvimento não só para os engenheiros e para as empresas de engenharia, mas de todo o país. Estamos vivendo um momento que exige esta transformação. E como nossa categoria, incluindo agrônomos, geocientistas e profissionais da área tecnológica, sempre teve um papel de liderança nos rumos do desenvolvimento do país, temos que entender a nossa responsabilidade neste processo de transformação.

O 5G já está batendo à porta, prometendo mudar toda a dinâmica das rotinas profissionais, na construção, na indústria e até mesmo no agronegócio. Inclusive os testes com a nova frequência já começaram a ser feitos em lavouras do Centro-Oeste brasileiro, em Rio Verde. É preciso conscientizar o poder público e sociedade civil sobre o quanto esta transformação vai ser determinante para o nosso futuro.

Se já vivíamos uma rotina de trabalho virtual, com a pandemia tivemos que nos reinventar e sermos praticamente 100% digitais. Vimos que é possível, agora temos que criar possibilidades para desburocratizar os sistemas, investir em capacitação e fazer com que o mundo digital não seja um assunto paralelo, mas esteja fundido  na coluna que sustenta a nossa cultura.

E como a mudança da cultura de um país deve começar no quintal da nossa casa, instituímos, dentro do próprio Conselho, cinco pilares de transformação: criar uma gestão transparente e colaborativa, estabelecer mecanismos de fiscalização digital, investir em serviços ágeis e inteligentes, promover capacitação profissional e estar sempre conectado com as empresas e os governos.

Queremos que estas nossas atitudes, enquanto gestores, também se efetive dentro das organizações com a reestruturação de negócios. Queremos que elas sejam modelo para órgãos públicos e, de fato, esteja tão entranhada na rotina dos profissionais de engenharia e da sociedade que aquilo que nós hoje chamamos de necessidade de transformação seja encarado como uma revolução permanente.

E qual é o primeiro passo para esta transformação? Baseando-nos em modelos de gestão de empresas e startups inovadoras, a cultura digital deverá ser  resultado de uma cultura de inovação envolvente, que incentive a sociedade a ser criativa, a buscar aspectos e ideias que eliminem a burocracia sem abrir mão da segurança e  que valorize o aspecto humano.

Esta implantação da cultura de inovação pode ocorrer de 3 formas principais. De forma aberta: quando misturamos ideias de fora e passamos a produzir os mesmos produtos que já produzíamos de uma forma nova, com estrutura e valor agregado diferentes;  De forma incremental: quando fazemos ajustes nos processos e produtos já existentes, tornando-os mais sustentáveis, mas sem grande impacto.

E da  forma mais definitiva de inovação a disruptiva: quando tudo é substituído por ideias e produtos inovadores, superiores, que geram uma mudança brusca de comportamento e de consumo.

E como não podemos parar tudo para aprendermos  a ser culturalmente digitais , a transformação deve ser cotidiana, quase semelhante a trocar um pneu com o carro em movimento: missão que, para engenheiros, não é algo incomum. Nenhuma empresa pode parar tudo e trocar todos produtos e serviços de uma vez. Nenhum órgão público pode alterar todos os processos sem que haja uma preparação da sociedade para isso.

Neste sexta-feira, dia 11 de dezembro, comemora-se o Dia do Engenheiro. A data é celebrada porque foi neste dia, em 1993, que um decreto regulamentou e oficializou as profissões de engenheiro, arquiteto e agrimensor. Queremos utilizar o simbólico que esta data representa para discutir a transformação digital para a categoria e também para a sociedade por meio de uma Convenção Digital.

A Convenção Digital será  transmitida por uma plataforma criada pelo CREA-SP (convencaodigitalcreasp.com.br). Trata-se de um evento gratuito que vai discutir com representantes de grandes empresas, como o conteúdo digital pode fazer parte de uma transformação cultural permanente em nossa sociedade.

Transformação digital é, sem dúvidas, a chave para o desenvolvimento deste país. Fazendo um resgate etimológico — Transformar — vem do latim “transformare”, e significa “fazer mudar de forma, de aspecto”.  Portanto, precisamos mudar para melhor o jeito como nosso país lida com o digital. Isso pode ser feito de forma incremental, nos deixando na média, ou de forma disruptiva, dando uma guinada para  o desenvolvimento sócio-econômico por meio da desburocratização e do estímulo constante à inovação.

*Vinicius Marchese, engenheiro e presidente do CREA-SP

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