Transformação digital: oportunidade latente ou retrocesso iminente?

Transformação digital: oportunidade latente ou retrocesso iminente?

Maurício Moura*

29 de abril de 2021 | 05h30

Maurício Moura. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em inglês há uma expressão para uso de tecnologia chamada “early adopters” (que traduzindo para o português seria os pioneiros a adotar uma determinada tecnologia). Os brasileiros não só são conhecidos por serem “early adopters” mas também por serem “heavy adopters” (grupo que adota uma tecnologia em larga escala). As plataformas de redes sociais e aplicativos de conversa tem no país um alto grau de penetração de usuários relativo à sua população.

Grandes empresas de tecnologia (Facebook, Google, Apple e Twitter por exemplo) olham para o Brasil como celeiro de experiências. Uma pesquisa inédita liderada pelo Banco InterAmericano de Desenvolvimento (BID) e executada pelo IDEIA mostrou que o grau de conectividade dos brasileiros é elevada, mas ainda há bastante espaço a ser explorado para evitar que dificuldades externas e internas crie gatilhos que impeçam a adaptação tecnologia ampliando a desigualdade tanto entre estados brasileiros como do país em relação ao exterior.

Na pesquisa realizada por telefone em todo o Brasil em dezembro de 2020, captou-se sub-amostras representativas para cada um dos 26 estados e para o Distrito Federal para traçar um retrato fiel do país e as diferenças entre cada um dos entes federativos. Ao ouvir 13.050 pessoas, um dos achados mostrou que a maioria da população brasileira, 86%, se sente adaptada ao mundo digital.

É claro que a pandemia acelerou todo o processo de digitalização do brasileiro. Ele se sentiu mais confortável e mais confiante com o ambiente online para fazer compras, solicitar serviços, absorver conteúdo de áudio e vídeo. E de uma maneira cada vez mais conectada e multidimensional: cada vez mais se consolida o fenômeno de se conectar em vários dispositivos ao mesmo tempo.

Isso se deve à um esforço do setor privado para tornar a experiência do consumidor cada vez mais dinâmica. Tudo é desenhado para ele escolher um filme ou série que lhe agrade em sua televisão conectada ao mesmo tempo em que usa seu smartphone para fazer compras ou pedir comida.

No estado de São Paulo, por exemplo, 96% da população afirma ter acesso à internet por meio do telefone celular. Levantamento da Ebit|Nielsen, por exemplo, mostrou que as compras pelo dispositivo móvel representaram 55,1% de todo o faturamento do e-commerce em 2020. Mais de 13 milhões de pessoas entraram no mundo digital para realizar suas primeiras compras no comércio digital, também segundo a mesma pesquisa

Esses dados eloquentes mostram que há uma enorme janela de oportunidade para o poder público. O foco da pesquisa do Ideia para o BID era subsidiar a ampliação e aperfeiçoamento de serviços on-line oferecidos pelo poder público. Segundo o próprio BID, o maior já realizado na América Latina e Caribe com foco em uso de serviços públicos digitais por parte dos cidadãos. “Nosso objetivo é apoiar o país, tanto no nível federal, quanto nos Estados e municípios, a identificar fortalezas e oportunidades de melhoria na transformação digital de seus governos”, explica Morgan Doyle, representante do BID no Brasil.

A pesquisa também traduz em números a avaliação dos cidadãos paulistas aos serviços oferecidos pelos governos federal, estadual e pelos municípios. Em São Paulo, assim como no resto do país, a parcela de cidadãos que aprovam os serviços supera a fatia de insatisfeitos – sendo a proporção de satisfeitos, no estado, equivalente à média nacional (aproximadamente 55% dos paulistas aprovam os serviços públicos digitais sejam nacionais, estaduais ou municipais.

De maneira similar à observada no estudo nacional, em São Paulo, a experiência com compras privadas atinge níveis mais elevados de satisfação do que os observados com os serviços públicos: (85% de experiência positiva e 3% de experiência negativa).

Os participantes paulistas também afirmaram que a principal forma de acesso a serviços digitais públicos e privados é o celular (82%, enquanto a média nacional é 87%). Por fim, 41% dos participantes relataram ter feito procedimentos por meio digital ou telefônico com o Governo do seu estado nos últimos 12 meses (a média nacional é de 40%).

O resultado da pesquisa mostra que é possível aprofundar a mudança digital dos serviços públicos. É uma mudança profunda, viável e pouco custosa que tem como resultado direto uma desburocratização gigantesca. O brasileiro já está adaptado ao mundo digital, basta agora o poder público perceber a onda e surfá-la. O risco de não aproveitar essa oportunidade é aprofundar o atraso e as desigualdades tecnológicas. A hora é de agir. A população está preparada. E o poder público?

*Maurício Moura é economista formado pela USP, especialista em psicologia política pela Universidade de Stanford, mestre em ciências sociais pela Universidade de Chicago e em gerenciamento político pela Universidade George Washington e doutor em economia e Política do Setor Público pela FGV-SP

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.