Transformação digital na indústria: o que esperar da nova revolução do setor

Transformação digital na indústria: o que esperar da nova revolução do setor

George Arraes*

15 de fevereiro de 2020 | 09h00

George Arraes. FOTO: DIVULGAÇÃO

A indústria atual vive um momento muito parecido com o que as instituições financeiras enfrentaram há poucos anos. Naquele momento, robustas e estáveis instituições que, há décadas, operavam basicamente da mesma forma, viram-se sacudidas por novos entrantes, que começaram a conquistar importantes fatias do mercado, entregando serviços financeiros com experiências à la Uber e Netflix. Isso ocorre graças às tecnologias que, gradualmente, atingem maturidade suficiente para permitir ações há pouco consideradas impossíveis ou economicamente inviáveis.

Entendendo as novas regras do jogo, os bancos tradicionais rapidamente investiram bilhões em recursos para se mover nessa cadeia e melhorar a jornada dos seus clientes com ofertas de soluções financeiras digitais mais abrangentes e sofisticadas. Nessa corrida rumo à crescente digitalização, seguem agregando cada vez mais tecnologia aos seus processos, aumentando a agilidade das suas operações e utilizando as vantagens e facilidades do online em seus serviços, produtos e atendimento. Colhendo, assim, ótimos resultados.

Agora, chegou a hora da indústria fazer esse movimento de entender que estamos vivendo uma nova revolução no setor e que é possível ter uma performance muito melhor e resultados muito mais impactantes com o uso das tecnologias certas para atender às necessidades dos clientes. Por outro lado, elas precisam perceber que essas mesmas tecnologias, atualmente muito mais disponíveis, são combustível para o surgimento de novos players com potencial de concorrer com o seu negócio. Diferentemente do setor financeiro, não são apenas novas empresas que constituem a ameaça, mas também todo o movimento que ocorre na Ásia, especialmente na China, é uma ameaça crescente à essas indústrias.

Em plena ascensão da indústria 4.0, as tecnologias impulsionam o potencial das companhias de melhorar sua performance, aumentar sua velocidade e gerar valor. Hoje, é possível automatizar e monitorar processos de forma cada vez mais minuciosa. Por meio de programação, as máquinas conseguem, com uma velocidade e precisão incríveis, rearranjar seus sistemas e fabricar produtos com especificidades diferentes em minutos.

Com esta capacidade de autorregulagem das máquinas e o aumento da possibilidade de hiper-personalização dos produtos, abre-se ainda mais espaço para melhoria operacional e, principalmente, para a redução de custos, de tempo e desperdícios com estoque.

Além disso, com o uso de dados, sensores e IoT nos equipamentos, temos outros ganhos muito valiosos para a indústria: uma importante redução nos gastos com reparos e troca de peças e maquinário e um aumento substancial na segurança. Isso acontece com a chamada manutenção preditiva que, com tecnologias para controle de parâmetros de funcionamento, é capaz de prever com muita acuidade quando uma peça precisará de manutenção e qual reparo será necessário.

O grande ganho das indústrias que passam por essa digitalização intensa está além das questões operacionais tradicionais. Está nas novas formas de receita que ela é capaz de gerar.  A transformação digital possibilitará prever o quanto de matéria-prima o cliente precisará por mês analisando não só a periodicidade dos pedidos, mas as oscilações do mercado, a demanda reprimida do produto final fabricado por esse cliente, além do movimento de concorrentes. Mais do que um fornecedor de matéria-prima, a indústria será capaz de oferecer informação estratégica, inteligência de mercado, o que tem muito mais valor e gera muito mais fidelização do que a matéria-prima em si.

Tudo isso acontece por meio de inteligência de dados, controlando não só o seu processo produtivo e suas vendas, mas também coletando e analisando informação de cada um de seus clientes, de concorrentes e as movimentações do setor no qual estão inseridos. A tecnologia somada à inteligência promove uma otimização da cadeia inteira, melhorando a performance, a velocidade e trazendo impactos em agilidade nos processos e aumento de receita para os envolvidos.

Como começar a evolução 4.0

Nós não acreditamos em passo a passo definido em se tratando de transformação digital. Não existe “one size fits all”, em especial quando nos referimos a atividades tão complexas e distintas quanto as das indústrias. Cada segmento apresenta suas peculiaridades, cada companhia seus objetivos e cada chão de fábrica suas diferentes dores e processos. Mas há alguns caminhos que são necessários e comuns a todas as companhias – em todos os setores. Vou listá-los aqui:

Tenha urgência – Geralmente, o board das indústrias já tem a consciência de que o momento de começar é agora. Como já mencionado, a tecnologia permite que, com muita facilidade, concorrentes grandes ou até mesmo novos entrantes abocanhem parcelas do meu mercado e coloquem o seu negócio em risco.

Investigue possibilidades – Compreendendo que é necessário agir, o próximo passo é analisar o que existe hoje no seu setor em relação às possibilidades para sua indústria.

Identifique suas oportunidades – As ferramentas são praticamente infinitas. Então, comece olhando para dentro de casa de forma estratégica para identificar onde estão as oportunidades de melhoria que podem ser realizadas com as tecnologias disponíveis. Investigue quais são os campos de jogo que você tem para aplicá-las, como, por exemplo, manutenção preditiva, implementação de inteligência de dados para apoiar equipes de vendas, forecast etc.

Comece de forma incremental – Crie hipóteses de solução para essas oportunidades, esses problemas pré-existentes, e escolha uma iniciativa na qual seja possível testar uma dessas hipóteses com segurança, sem comprometer o seu negócio. Em ciclos de, no máximo, 90 dias, você deve ser capaz de verificar se algum ponteiro do seu negócio foi afetado. Mesmo que o ganho não seja fortemente significativo, você já terá indícios concretos de caminhos para seguir.

Escale resultados – Com esse primeiro ciclo de aprendizados, será possível partir para um teste maior, que talvez abranja outras áreas do seu negócio. Passe para o novo ciclo de 90 dias para testar, aprender mais e vá evoluindo nesse novo formato de operação para, pouco a pouco, melhorar sua performance, sua velocidade e ganhar escala na digitalização de sua indústria.

Quando fazemos uso adequado da tecnologia, ela nos oferece o potencial de dar enormes saltos em performance, velocidade e qualidade em escala a produtos, serviços e experiências, trazendo ganhos – há pouco impensáveis – para a vida para as pessoas, para a sociedade e para os negócios. Cabe à indústria, por ser o ponto inicial da cadeia, uma grande responsabilidade de fazer esse futuro acontecer.

*George Arraes, Head Of Customer Experience da CI&T

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