Transformação digital impulsionada pela covid-19

Transformação digital impulsionada pela covid-19

Herman Bessler*

20 de maio de 2021 | 03h00

Herman Bessler. FOTO: DIVULGAÇÃO

O impacto da COVID-19 na economia e na sociedade só será realmente dimensionado ao longo dos próximos anos. O vírus, porém, já mudou radicalmente o cotidiano de pessoas e organizações. Em poucas semanas ao longo de março e abril de 2020, milhares de empresas ao redor do mundo precisaram adotar práticas de trabalho remoto e cultura de gestão enxuta e ágil para lidar com o isolamento recomendado  ou determinado por governos.

O trabalho remoto é uma tendência há pelo menos uma década, mas a escala da adoção recente é algo inédito. Nos últimos meses, empresas de todos os portes precisaram implementar, às pressas, essa prática que traz consigo necessidades pouco mapeadas, como a metrificação de performance por entregas (ao invés de horas), boas práticas de reuniões virtuais e compliance ligado ao sigilo de dados – sem falar nos desafios da motivação frente ao isolamento social de longo prazo.

É natural encarar o trabalho remoto como uma das facetas da transformação digital nas empresas, que gosto de definir como o processo de utilizar tecnologias digitais para entregar a estratégia da companhia de forma ótima. A transformação digital exige mudanças fundamentais de tecnologia, mas não apenas isso. Estamos falando também sobre cultura, processos, modelos de negócio e sistemas de gestão. Todas essas camadas são transformadas pela lógica do mundo pós-digital. É uma aceleração de parte da transformação digital planejada para os próximos 10 anos em alguns meses.

Gestão de crise e o paradigma digital

O grande objetivo das empresas competitivas não é chegar ao digital, mas se tornarem organizações adaptáveis. Transformação digital na prática é também sinônimo de ajustar constantemente a rota. Diversidade, capacidade de trabalho flexível com alta performance, tomada de decisão baseada em dados, utilização da inteligência coletiva. Todos esses chavões da nova economia se traduzem em duas características principais: resiliência e adaptabilidade.

Debati com diversos executivos e conselheiros a mesma questão no último ano: qual o protocolo de gestão para lidar com uma crise desta magnitude? Ainda que não exista uma única resposta, sabemos que a capacidade de manter operações funcionando com a menor disrupção possível durante crises e mesmo desastres de naturezas diversas se tornará um diferencial de negócio cada vez mais evidente nos próximos anos. Eventos imprevisíveis e disruptivos continuarão colocando em risco a performance econômica de segmentos inteiros. Empresas que não aprenderem com os eventos recentes continuarão mais vulneráveis e terão chances menores de sobrevivência.

Por isso mesmo, metodologias ágeis começaram a ser adotadas com maior intensidade nos últimos meses para áreas não técnicas. Gestão enxuta e aplicação de ferramentas digitais de comunicação e gestão de projetos possibilitam maior agilidade e capacidade de adaptação à uma organização. Não à toa Google e Microsoft disponibilizaram suas ferramentas de trabalho e comunicação gratuitamente no início da pandemia. É momento de coletar os leads dos próximos anos.

Notavelmente, a COVID-19 está também acelerando a transformação digital ao redor do mundo. EdTech e HealthTech são alguns dos setores em franca expansão para lidar com os impactos do vírus nas escolas e mapear padrões de disseminação com uso de inteligência artificial, além de facilitar a triagem de pacientes e medir a eficácia de tratamentos. Neste contexto, a União Europeia anunciou uma chamada pública para investir €164m em startups de saúde. A telemedicina deve experienciar crescimento igualmente acelerado neste contexto.

A pandemia vai passar, mas as cicatrizes culturais e principalmente os aprendizados de liderança perdurarão com todos aqueles que forem capazes de sobreviver durante à crise. Enquanto assistimos em meados de 2020 ao impacto combinado do COVID-19 com a crise institucional que vivemos no país, algumas perguntas persistem ao fundo: como nos prepararemos para os acontecimentos que virão a seguir? Quais as oportunidades que podemos identificar se estivermos atentos? Será que esperaremos a próxima grande crise para co-criar futuros desejáveis? Nesta era de transformações, a sobrevivência, como melhor disse Darwin, não é das mais fortes. É das mais adaptáveis.

*Herman Bessler, fundador e CEO do Templo.cc

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