Transbordamento

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Ricardo Viveiros*

03 de setembro de 2020 | 08h05

Ricardo Viveiros. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Há exatos 80 anos, na cidade de Montevideo, no Uruguai, nascia neste dia 3 de setembro um menino ao qual seus pais, descendentes de uma elite agrícola católica, batizaram com o imponente nome de Eduardo Germán María Hughes Galeano.

Desde pequeno, Eduardo Galeano, como mais tarde se tornou conhecido mundialmente, sentiu-se atraído por assuntos populares como religião, futebol e política. Pensou em ser padre, era craque na bola, desenhava bem (trabalhou como criador de letreiros) e, aos 14 anos, vendeu uma charge política para o jornal El Sol. Não poderia ser diferente, apaixonou-se ao ver o seu trabalho criativo impresso no papel e decidiu ser Jornalista. Com o tempo, acumulando tantas histórias, tornou-se também Escritor.

No começo dos anos 1960, Eduardo Galeano foi editor do jornal semanal Marcha, no qual colaboraram outros dois grandes nomes da literatura, o poeta uruguaio Mario Benedetti e o romancista peruano Mario Vargas Llosa. Foi também editor do importante diário uruguaio Época.

Perseguido em seu país quando do Golpe Militar, em 1973, esteve preso e foi incluído em lista do famigerado “Esquadrão da Morte” — grupo de extermínio de opositores ao regime. Eduardo Galeano exilou-se na Argentina e na Espanha. Voltou ao Uruguai na redemocratização, em 1985, e lá ficou até morrer de câncer generalizado em 2015.

Seu mais importante livro, que o tornou conhecido e admirado internacionalmente, é As veias abertas da América Latina. Obra polêmica lançada em 1971 e tida como importante posicionamento de esquerda, muitos anos depois, na 2ª Bienal do Livro e da Leitura, em Brasília (DF), aqui no Brasil, mereceu uma explicação do autor: “Veias Abertas pretendia ser um livro de economia política, mas eu não tinha o treinamento e o preparo necessários“. E para surpresa de todos, eu estava lá e não me esqueço do momento, confidenciou: “Eu não seria capaz de reler esse livro; cairia dormindo. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é extremamente árida, e meu físico já não a tolera.

A declaração foi destaque na imprensa, intelectuais de esquerda se mostraram indignados com a mudança nas convicções políticas do respeitado jornalista e escritor que tanto sofrera por suas corajosas posições ideológicas. Mais tarde, em uma entrevista, Galeano deixou claro: “O livro, escrito há tanto tempo, continua vivo e saudável. Apenas sou honesto o bastante para admitir que neste ponto de minha vida o velho estilo de escrita me soa por demais pesado, e que é difícil me reconhecer nele, já que prefiro agora ser cada vez mais breve e fluente.” E para eliminar qualquer tipo de ilação, afirmou: “As vozes que se levantaram contra mim e contra ‘As veias abertas da América Latina’, estão seriamente enfermas e agem de má-fé.”

Seus textos têm estilo único, pode-se observar vários gêneros literários que convivem em perfeita harmonia na mesma obra: narrativa, ensaio, poesia e crônica despertando encantamento nos leitores. Para lembrar o talento de Eduardo Galeano, neste seu aniversário, busquei a magia de um pequeno conto extraído de O livro dos abraços, editora L&PM (1997), em tradução de Eric Nepomuceno:

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Pai, me ensina a olhar!” 

Nos dias de hoje, nada mais importante do que aprender a olhar com respeito a grandeza das coisas. 

*Ricardo Viveiros, jornalista e escritor, é autor de O poeta e o passarinho (Biruta); Saudade (Girassol); e O menino que lia nuvens (Gaivota); entre outros livros

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