Tragédias anunciadas

Tragédias anunciadas

José Renato Nalini*

09 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A natureza é sábia e complexa. E imensamente rica. Mas aquela criatura que se intitula a única racional, aquela que considera que tudo o mais está a seu serviço, não sabe respeitar essa exuberância. Prefere destruí-la. É o que acontece, por exemplo, com os corais.

O que são corais?

Corais são animais cnidários da classe Anthozoa, que segregam um exosqueleto calcário ou de matéria orgânica, ao contrário das anêmonas-do-mar, que pertencem à mesma classe. Os indivíduos adultos são pólipos individuais ou coloniais e encontram-se em todos os oceanos.

Eles também estão sendo vitimados pelo aquecimento global. Um dos cientistas que se intrigou com os corais foi Charles Darwin. Encontrou-se com o primeiro recife em 1835, quando a bordo do célebre “Beagle”, em direção ao Taiti. Viu, do navio, “curiosos anéis de corais” que se projetavam pelo mar. Isso hoje se chama “atol”.

Darwin já sabia que corais eram animais, fabricantes de recifes. Impressionou-se com “aquelas vastas áreas intercaladas com baixas ilhas de corais que se erguiam abruptamente das profundezas do oceano”. Como tal formação era possível?

Darwin pensou sobre isso durante muitos anos. Os corais foram o objeto de seu mais importante trabalho científico: “Estrutura e distribuição dos recifes de corais. Isso o auxiliou a desvendar o mistério da seleção natural. Viu e experimentou a realidade de um trabalho de seleção artificial, realizado pelos humanos. E indagava: “Se o homem frágil, com seus limitados meios, consegue realizar tantos progressos aplicando a seleção artificial, não posso perceber limite algum na soma de alterações que pudesse ser realizada aplicando o poder da seleção natural”.

Só que o “homem frágil”, observa Elizabeth Kolbert, no seu livro “Sob um céu branco: a natureza no futuro”, agora está mudando o clima. E exercendo forte pressão seletiva, bem como uma infinidade de outras formas de “mudança global”: desmatamento, fragmentação do habitat, introdução de predadores, introdução de patógenos, poluição luminosa, poluição do ar, poluição da água, herbicidas e raticidas. Como chamar a seleção natural depois de “O fim da natureza”? Este é o livro escrito por Bill Mckibben, editado no Brasil pela Nova Fronteira.

Realmente, a natureza está chegando a um fim melancólico. Tudo em virtude de uma série de fatores, dentre os quais o egoísmo, a ignorância e a cupidez não são os menos importantes.

É o que acontece com os corais, que sofrem os efeitos do aquecimento global. É o processo de branqueamento, que interrompe a relação do coral com seus simbiontes. Quando a onda de calor é muito forte, os corais morrem de fome.

Esperar que sobrevenha juízo para a humanidade e que ela deixe de produzir gases geradores do efeito estufa? Ou aguardar que se descubra uma invenção milagrosa que resolva o problema?

Talvez convencer a infância e a juventude a descobrirem a maravilha do mundo dos corais. Segundo Kolbert, o número de espécies encontradas num trecho de recife saudável é provavelmente maior do que o encontrado num espaço similar em qualquer outro lugar da Terra, inclusive na Floresta Amazônia. Estima-se que, no mundo inteiro, recifes abriguem ente um e nove milhões de espécies, ainda que os cientistas encarregados do estudo do crustáceo tenham concluído que, provavelmente, mesmo esta alta estimativa seja baixa demais.

Ocorre que, “como ninguém sabe quantas criaturas dependem dos recifes de corais, ninguém pode saber quantas seriam ameaçadas por seu colapso; contudo, sem sombra de dúvida, o número é gigantesco. Estima-se que uma a cada quatro criaturas nos oceanos passe ao menos parte de sua vida num recife”.

A coisa é muito séria: “Segundo Roger Bradbury, ecologista da Universidade Nacional da Austrália, caso essas estruturas desapareçam, os mares ficarão muito parecidos com o que eram no período Pré-cambriano, há mais de quinhentos milhões de anos, antes de os crustáceos terem sequer evoluído: o mar ficará gosmento!”.

O Brasil que incendeia a Amazônia e que acaba com os demais biomas, não trata de maneira mais generosa os seus corais. Eles também têm sido exterminados ao longo dos oito mil quilômetros de costa.

É isso o que legaremos para os nossos descendentes?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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