Tragédia em Brumadinho: longe de ser um fenômeno isolado

Tragédia em Brumadinho: longe de ser um fenômeno isolado

Maria Inês Vasconcelos*

08 Fevereiro 2019 | 06h00

Imagem aérea de Brumadinho, onde barragem da Vale se rompeu. FOTO: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

A tragédia ocorrida em Brumadinho, que ceifou a vida de pelo menos 150 pessoas, em sua maioria empregados, está longe de ser um fenômeno isolado e desconectado da pauta que estuda a violência do trabalho.

A precariedade e violência sempre estiveram presentes nas relações laborais, provocando situações gravíssimas como a que ocorreu em Brumadinho, e nos fazendo reviver, pela brutalidade, o incêndio ocorrido em Nova York, em 1911, na fábrica de camisa Triangle Shirtwaist.

Naquela ocasião, 136 mulheres e 21 homens morreram em razão de um acidente de trabalho ocorrido na indústria, que ocupava os três últimos andares de um edifício com dez andares. Além da empresa ter se recusado a assinar um acordo com um dos maiores sindicatos dos EUA, na época, as condições da fábrica contavam com tecidos inflamáveis guardados em toda a fábrica, iluminação a gás e não existiam extintores de incêndio.

Com isso, grande parte dos funcionários não conseguiram se salvar, pois as saídas estavam fechadas com a justificativa de impedir que os operários saíssem durante o período de trabalho ou roubassem materiais, e a única saída de emergência se arruinou pelo peso daqueles que tentavam escapar. A sirene não tocou.

O ocorrido, aflorou o debate acerca dos critérios rigorosos sobre as condições de segurança no trabalho, assim como para o crescimento dos sindicatos. Se pensarmos em termos de acidente de trabalho, em violência, em precariedade das condições de mão de obra, os fenômenos se equiparam, muito embora, os fatos se distanciem em cerca de 100 anos.

Não desejamos “psicologiar” o fenômeno da violência no trabalho, mas é impossível desviar de Freud, que se afastando dos estudos acerca da sexualidade humana, arvorou em outros campos, sobretudo por ocasião da guerra e estudou um tema muito pungente: a pulsão da destruição humana. Concluiu, àquela época, que o homem, infelizmente, tende a destruir o outro homem. Essa pulsão “desumana” de Freud responde com constrangedora simplicidade ao fenômeno da violência coletiva, ocorrida nas guerras, genocídios e outras formas de extermínio.

A tragédia ocorrida em Brumadinho, Mariana (2015) e o incêndio na camisaria Triangle também são formas de extermínio do homem pelo próprio homem, que atua, pelo menos em tese, com uma pulsão de destruição, pela não prevenção da violência ou outros valores do mal. Ainda que Freud explique e compreendamos que a existência desta força existe dentro do próprio homem, não podemos legitimar o fenômeno e aceitar, sem esbravejar, a morte de tantos trabalhadores.

“Compreender não é perdoar”, afirmou o historiador americano Christopher Browning, em sua obra sobre o Holocausto em Hamburgo, que envolviam os carrascos que executavam em massa judeus poloneses, com frieza e alienação.

Achar um sentido nisto tudo, nos leva à tentativa de buscar na incoerência uma explicação legítima para estas mortes, o que é praticamente impossível. Podemos dizer que Freud, explica, mas mesmo assim, permanecem várias dúvidas e centenas de vítimas reféns da inteligência provocadora do mal.

Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, afirmou durante anos que os Estados democráticos sempre se ajustaram em sua promessa e responsabilidade de proteger e zelar pelo bem-estar coletivo, em contrapartida à desgraça individual. Em seu livro Cegueira Moral (2014), Bauman traz à tona a questão da perda da sensibilidade diária em relação ao outro no mundo contemporâneo.

Portanto, não há desculpas para os mandantes, seja ele o Estado, seja a empresa Vale, ou engenheiros, peritos, e membros do Executivo, Legislativo e Judiciário. Tampouco podemos perdoar o dono da fábrica de camisas e todos aqueles que contribuíram com sua omissão, seja do ponto de vista jurídico, técnico ou ético, mas que coadjuvaram para a morte de tantos inocentes.

O porquê vai sempre nos perseguir. O que fizemos? Por que isso ocorreu? Por que a sirene não tocou? Por que o refeitório era localizado no pior dos locais? E por que mesmo havendo previsão dos fatos, os mesmos não foram obstados? Nunca saberemos… A sirene não tocou em Nova York também.

Finalizamos com o Primo Levi, que ao ser aprisionado nos campos de concentração de Auschwitz, conversou com outra vítima, sendo esse, um médico polonês que também estava preso. O médico-vítima sabia que iria para a câmara de gás e Levi então, sem compreender, perguntou-o, muito triste: “Por quê, por quê, Rudolph?”. E recebeu a seguinte resposta: “Aqui não há porquê (hier ist kein warum)”.

Não há porquê. Não há explicações. E recusar perdoar, é o nosso único triunfo póstumo.

*Maria Inês Vasconcelos, advogada, pesquisadora, professora universitária, escritora