Tradição e mudanças na Sanfran

Tradição e mudanças na Sanfran

Floriano de Azevedo Marques Neto*

28 Novembro 2017 | 10h00

Floriano de Azevedo Marques Neto. Foto: Arquivo Pessoal

Assumir a diretoria da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco é uma honra e um desafio, sempre. Nos dias atuais, é também uma boaventura. A instituição passa por um intenso processo de transformação e inovação, iniciado já nas gestões passadas. Afortunadamente, essas mudanças têm se dado em ambiente de grande harmonia, debate e engajamento. Isso se refletiu recentemente na eleição para o quadriênio de 2018-2022. A minha eleição, juntamente com o professor Celso Campilongo como vice-diretor, se deu no âmbito de raro consenso. A confiança de mais de 90% dos votantes e de quase dois terços do colégio eleitoral é mostra disso. Mais do que apoio, o resultado indica o engajamento necessário para enfrentar as tarefas por vir.

Nos próximos anos haverá uma transformação importante no perfil do alunado de graduação. A partir deste vestibular de 37% até 50% dos ingressos serão provenientes de escola pública, sendo destes 37% reservados a cotas raciais, o que implica entre 13% e 18% de alunos autodeclarados pretos, pardos e indígenas, o equivalente à proporção indicada pelo IBGE na população de São Paulo. Esse processo coloca a necessidade da Faculdade se preparar para receber este alunado. Só a abertura a este perfil de estudante é pouco. Serão precisos investimentos em políticas de permanência, bolsas de estudo, apoio e atenção para que haja o máximo de aproveitamento do curso, sem qualquer tipo de discriminação. A riqueza trazida por essa mudança deverá ser aproveitada por toda a comunidade docente e discente. Cabe à diretoria dar meios para que isso ocorra.

Por outro lado, é notável a necessidade de atualizarmos nossos métodos de ensino na graduação e na pós graduação. Vivenciamos mudanças significativas seja no Direito, seja no encaixe cognitivo dos estudantes. A cada ano ensinamos para alunos mais e mais alfabetizados no mundo digital. A pesquisa e o conhecimento mudaram radicalmente neste século. Incluir métodos de ensino que aproveitem as plataformas tecnológicas, instiguem a criatividade e capturem o interesse dos alunos é urgente. Direcionar nossas linhas de pesquisa e conteúdos para os temas da atualidade é indesviável. A diretoria tem o dever de apoiar e incentivar estes processos.

Não podemos desconsiderar a grave crise financeira que vivemos. Nos próximos anos não há sinais de que as contas da USP terão alguma folga. Os reflexos desta crise na remuneração e nos incentivos aos servidores e docentes não pode ser menosprezada e, na medida do possível, deve ser arrefecida. É preciso criatividade para viabilizar fontes de financiamento, público e privado, alternativas ao orçamento da Universidade. O que só será possível com um amplo e transparente debate com a comunidade acadêmica e com a sociedade, sem abrir mão da nossa autonomia. Não podemos mais esperar para resolver em definitivo as instalações da biblioteca. Patrimônio histórico nacional, a biblioteca deve dispor de recursos públicos para adequar suas instalações. A infraestrutura da Sanfran também demanda investimentos. O fato de estarmos numa edificação histórica não nos condena à precariedade de instalações. Há vários mecanismos, alguns já testados, que permitem a melhoria de nossa infraestrutura mesmo em crise financeira.

A Faculdade de Direto é mais do que uma ótima escola pública. Ela tem um papel fundamental no país. É preciso ampliar sua abertura para a sociedade, melhorando a forma de comunicação. Num momento em que o país passa por uma grave crise institucional, a São Francisco deve ocupar uma posição mais central no debate plural e amplo em torno das soluções jurídicas para aperfeiçoamento de nossas instituições.

A agenda é desafiadora. Mas o momento não poderia ser melhor. Há grande disposição de alunos, servidores e professores. Há uma significativa mudança geracional nos três segmentos. Compromisso e engajamento não faltam. Em tempos de polarização e sectarismos, temos conseguido enfrentar nossas divergências pelo debate franco e leal. O apoio que recebemos na votação e, após ela, vindo de vários segmentos internos e externos à FDUSP nos enche de energia. Estamos convencidos que podemos ajudar a construir uma instituição bicentenária a um só tempo jovem e tradicional.

*Floriano de Azevedo Marques Neto é professor Titular de Direito Administrativo da USP. Diretor eleito da Faculdade de Direito para o período de 2018-2022

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