‘Trade-offs’ do Brasil

‘Trade-offs’ do Brasil

Leila Rocha Pellegrino*

09 Outubro 2018 | 05h00

Leila Rocha Pellegrino. FOTO: DIVULGAÇÃO

De todos os conceitos econômicos que inundam o ambiente de negócios, um dos que considero mais fascinantes é o trade-off. O termo de origem inglesa faz referência ao enfrentamento de situações em que há conflitos de escolhas. Assim, ele se aplica a situações em que se tem duas situações desejáveis, porém contrapostas. Esse conceito pode ser observado sob diversas perspectivas.

No jogo de xadrez, consiste em abrir mão de peças menores (comumente os peões) para preservar e dar mobilidade a peças mais importantes (como a Rainha).

Na vida pessoal, o trade-off remete a situações como: trocar de carro ou viajar nas férias? Poupar no presente para gastar no futuro ou consumir no presente e comprometer a renda futura? Priorizo qualidade de vida e proximidade do local de trabalho ou busco melhor remuneração atuando longe de casa? Agarro uma carreira executiva ou me lanço no sonho do empreendedorismo?

Os trade-offs estão presentes na economia e na vida em geral, em suas diferentes fases. Sua importância é dada pelo fato de que, sob nenhuma circunstância, é possível ter tudo quanto se quer.

Ou seja: ele traz consigo a ideia básica de que é necessário abrir mão de algo para obter-se o que se deseja. Desse modo, pode também representar situações de trocas intertemporais, que contrapõem ações presentes e consequências futuras. O fato é que o enfrentamento do impasse é sempre importante e, invariavelmente, traz impactos decisivos na vida das pessoas.

A economia brasileira também é marcada por muitos e importantes trade-offs. A expansão da atividade econômica entre 2004 e 2013 representa bem essa situação de escolha intertemporal.

Naquele momento, a economia brasileira, apoiada na expansão do crédito ao consumo, experimentou crescimento econômico dando acesso ao mercado para grande parcela da população.

A escolha por essa forma de crescimento ocorreu em detrimento de ações para modernização e expansão da estrutura produtiva e do fortalecimento dos condicionantes da competitividade nacional – ambiente institucional favorável à competição, enfrentamento dos graves problemas de infraestrutura produtiva e exportadora do país, fomento à inovação, entre outros.

Quando em 2008 sobreveio a crise financeira internacional, o intuito de transformá-la numa marolinha consistiu no reforço dessa escolha, aumentando mais o ônus do endividamento sobre o futuro de boa parte dos brasileiros. Aquele crescimento que à primeira vista parecia certeiro, escondia, em sua essência, um importante dilema intertemporal: aquecer a demanda sem a equivalente expansão da oferta produtiva restringiu possibilidades de ampliação substantiva do emprego e da renda ao passo que endividou drasticamente as famílias brasileiras.

Os últimos quatro anos mostraram que o futuro é um cobrador implacável.

A forte recessão, o elevado grau de endividamento das famílias brasileiras, o agravamento do desequilíbrio das contas públicas e a perda de competitividade da indústria nacional não podem ser atribuídos apenas aos condicionantes econômicos externos ou à crise política, mas também às escolhas feitas em anos anteriores, traduzidas em políticas econômicas e seus trade-offs.

Enfrentar com sucesso situações em que há conflitos de escolha não é tarefa fácil ou trivial. Essas escolhas dependem de engajamento consciente, visão crítica e realística, buscando compatibilizar conhecimentos e princípios num projeto de futuro melhor.

Em outubro faremos escolhas que terão desdobramentos para os próximos anos. Mesmo que para muitos brasileiros as opções disponíveis estejam longe de uma alternativa ideal, o conceito de trade-off nos remete a necessidade de tomar uma decisão intertemporal, nesse caso escolho hoje e colho no futuro. Será um grande desafio de delimitação das fronteiras do razoável, ou seja, daquilo que parece possível, aceitável e democrático como trade-off ao país.

*Leila Rocha Pellegrino é coordenadora do curso de Administração do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas

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