Trabalho remoto não é para todos

Trabalho remoto não é para todos

Nicolaos Theodorakis*

02 de abril de 2021 | 06h00

Nicolaos Theodorakis. FOTO: DIVULGAÇÃO

Há cerca de seis meses, li uma entrevista do CEO de um importante grupo internacional de Nova Iorque. Ele incitava todos os demais executivos locais (talvez das maiores empresas globais) a acordarem da letargia pandêmica. Provocou-os a serem exemplo e voltarem aos escritórios, não apenas para ajudar a cidade a se refazer do período Walking Dead, mas também a acordarem para o risco que estavam correndo ao estabelecer integralmente o home office.

Apesar de não defender a volta coletiva e irrestrita, ele mencionava a importância da vida corporativa nos cafés, varejos e escritórios da cidade. Obviamente, sempre pensando nos cuidados e precauções necessárias para a segurança de seus funcionários.

O executivo alertava principalmente sobre o risco do período longo do home office, o impacto que esse modelo traria para a manutenção da cultura da empresa, da saúde mental das pessoas e dos processos de inovação e criatividade, todos muito importantes para o futuro das companhias.

Como lidar com essa questão no meio de uma pandemia que mata tanta gente?

O mundo criou em 2020 uma nova forma de viver, de trabalhar, de estudar. Desde o primeiro dia da pandemia tenho feito uma profunda reflexão a respeito do home office e os impactos que a Covid-19 trouxe aos espaços de trabalho, e tal reflexão me proporcionou uma visão muito diferente de tudo o que eu lia nos jornais. Para mim, a adoção do trabalho remoto refletia uma visão de curto prazo e que, tão logo os decisores enxergassem o horizonte pós-vacina, muitas das teorias criadas do que seria o “novo normal” (palavra que sempre evitei usar), cairiam por terra e se verificaria que boa parte da decisão estava sendo feita baseada pelo aspecto financeiro.

Uma variável importante nesse processo foi o fato de que, em abril de 2020 contraí o tão temido vírus, colocando em risco não apenas a minha vida, mas a da minha família e a de minha equipe de trabalho. Me isolei e, depois de longo processo de recuperação, agora com anticorpos, tive um vislumbre de como poderia ser o mundo pós-vacinação.

Deixando claro que não estou falando das vidas que devem ser preservadas e dos resguardos que temos de ter neste momento, faço aqui uma análise de um mundo em que eventualmente todos estarão imunizados.

É importante trazer à tona os impactos negativos do home office na rotina das pessoas. Acredito que seus efeitos estejam muito ligados ao medo da pandemia, que tem trazido subsequentes notícias ruins. Mas, como empresário, também acho necessário um olhar sobre a mudança da estética de trabalho, a forma como as pessoas se relacionam com o emprego. Não podemos nos esquecer de que há perfis de colaboradores que podem sentir certa insegurança ligada à distância criada com os superiores, colocando em dúvida sua permanência na empresa, e, não menos importante, queda de efetividade e produtividade. São situações e sensações que podem ser rapidamente desfeitas em conversas nos corredores da empresa, quando se está em contato com pares e chefes no dia-a-dia.

Áreas operacionais se adaptaram bem ao trabalho em casa, mas as áreas criativas sofreram um pouco mais. Pelo estágio em que atualmente se encontra minha empresa, passei por situações em que me vi fazendo reuniões comerciais estratégicas com investidores através de uma tela de computador. Foi um desafio enorme, principalmente porque o momento em que estávamos demandava aspectos importantes para os negócios, como o olho-no-olho. Certamente para este tipo de conversa o ideal seria uma reunião presencial, em que mais aspectos ligados ao comportamento dos participantes seriam melhor explorados.

Assim, seja por já ter passado pela doença e ter a visão de alguém mais “protegido”, e também por entender a dinâmica das empresas, o fato é que me convenci a não acreditar na filosofia do trabalho remoto nas empresas.

Acredito, sim, na flexibilidade da jornada de trabalho, na implementação da meritocracia e no empoderamento das pessoas em decidir sobre onde querem executar suas funções. Cada vez mais esta decisão levará em conta aspectos pessoais além do profissional, o que vai exigir maturidade e disciplina das pessoas. Também as organizações deverão balancear muito bem a equação do quanto se deve deixar de lado e quanto se deve manter com relação à cultura de cada empresa.

Hoje, a previsão otimista é que, em algum momento de 2021, boa parte da população esteja vacinada e, enfim, chegará a hora em que as pessoas retomarão suas vidas e retornarão aos escritórios. Cabe, agora, a reflexão: “Qual seria a nova dinâmica de espaços de trabalho?”; “O que os colaboradores devem esperar deste espaço onde passarão tantas horas?” e “Como seria possível projetar esse novo escritório?”. Os escritórios deverão assumir o papel de extensão do nosso lar. Nesse contexto, a arquitetura e o design de interiores serão essenciais para traduzir como são as casas dos colaboradores e como trazer alguns aspectos pro escritório, para que todos continuem se sentindo “dentro de seus lares”. Nesse aspecto a palavra de ordem é conforto. Assim como na indústria da moda, neste setor a transformação de consumo também se volta à comodidade e ao bem-estar. É fundamental que os espaços de trabalho proporcionem essa sensação para as pessoas.

*Nicolaos Theodorakis é engenheiro e empreende no mercado imobiliário há 10 anos com foco no mercado residencial de alto padrão. Fundador da Noah Wood Building Design

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