Trabalhar tem de ser divertido

Trabalhar tem de ser divertido

José Renato Nalini*

28 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O trabalho não pode ser encarado como castigo, como um dia já foi considerado. Assim fora, e muito brasileiro gostaria de ser castigado, pois não consegue emprego ou empreender qualquer atividade lucrativa.

Missão de todos os seres humanos sensíveis e preocupados com as sombras que se avolumam para o futuro próximo, é encontrar fórmulas rentáveis de sobrevivência em escala crescente e sedutora para a mocidade do século 21.

Há muita coisa de que o Brasil precisa. Pensemos no maior desafio imposto sobre a humanidade e para o qual, havia décadas, estávamos preparados: o aquecimento global. É imprescindível refrear o retrocesso.

Os cientistas comprovaram que os males que afetam o planeta são causados pelo único animal que se auto-considera racional. Todos os outros, na exuberância de espécies animais vivas, não ocasionam o desastre cujo responsável é o bicho humano.

Bem por isso, as atividades mitigadoras ou corretivas desse nefasto comportamento precisam ser estimuladas.  Fala-se bastante em cessar o desmatamento, mas é necessário e urgente, muito mais do que isso. Insuficiente cessar a prática delitiva. É hora de reparação.

Já passou o momento de encarar com seriedade o projeto de reflorestar, de formar viveiros, coletar sementes, refazer as matas ciliares e atuar num consistente processo de educação ambiental, para que as gerações do porvir não continuem a incidir no mesmo erro que nós praticamos.

Mas também é preciso pensar em outros trabalhos que hoje exigem qualificação ainda inexistente no mercado educacional oferecido à Juventude. Os países que prosperaram, foi porque investiram nas modernas tecnologias e dispararam na obtenção de um produto interno mais fino do que o PIB. Porque, na verdade, o que interessa mesmo, é aferir o nível de Felicidade da população e não quantificar materialmente o que ela pode produzir.

As crianças nativas digitais têm desenvoltura espontânea em relação às tecnologias da comunicação e da informação. Nunca se acostumarão ao regime fordista de trabalho automático, desinteressante, repetido e pouco criativo, que ainda prevalece como padrão.

É importante pensar em criar ambientes mistos , que permitam o trabalho híbrido, pois aquilo que se produz em casa pode ser muito mais eficiente do que a verdadeira prisão, por horas a fio, dentro de um escritório impessoal e inibidor de qualquer sentimento de satisfação com aquilo que se faz.

Um empregador que consegue enxergar à distância, cuidará de oferecer condições favoráveis ao melhor desempenho possível de seus colaboradores. Tentará fazer de seu local de trabalho, na medida das possibilidades, algo como os escritórios Google, que são extremamente cuidadosos com o design, na certeza de que o acolhimento estético é um fator de aceleração de um melhor convívio profissional e de excepcional performance.

Pense-se em oferecer móveis ergométricos, intervalos para exercícios físicos, instalação de uma pequena academia para ginástica, para uso dos servidores. Intervalos que separem períodos na jornada, para diálogos, novas propostas ou ideias a serem livremente expostas. Por que não o oferecimento de lanche, café expresso gratuito, presença permanente da natureza? A pandemia mostrou que o apreço aos jardins, às árvores, às flores e aos animais é algo que melhora bastante o clima da convivência entre trabalhadores.

Tudo o que puder valorizar o espaço em que se prestará o serviço, redundará em evidente benefício para a própria empresa. Ouse-se mais: motivar o corpo funcional a exercer seu hobby favorito ou a formar grupos para teatro amador, coral, clube de leitura ou intensificação no aprendizado ou aprimoramento de um segundo ou terceiro idioma, contribuirá para conferir um upgrade à gerência que conseguiu enxergar um novo panorama para o universo do trabalho.

Uma coisa é certa: o mundo nunca mais será o mesmo, depois das milhões de mortes causadas pela peste. Pior ainda, fala-se em uma sucessão de novas ondas, tudo agravado porque não aprendemos com esse flagelo a mudar nossa insensata forma de vida.

Sobreviverão as atividades que absorverem a urgência da mudança integral. Mudança de filosofia existencial, que se preocupe com aquilo que, até o momento, não foi objeto de atenção: tornar menos angustiante a existência daqueles que conseguiram escapar à “indesejável das gentes”, mas que têm todos os motivos para estarem angustiados e desprovidos daquela Esperança que, para os brasileiros mostrou que pode ser a última, mas que não é imortal.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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