Toyo Setal rompe cartel da Petrobrás e decide cooperar

É a primeira empresa da Operação Lava Jato que se dispõe a revelar detalhes do conluio; um de seus diretores vai fazer delação premiada, a quarta do caso

Redação

01 Novembro 2014 | 03h00

Fausto Macedo e Ricardo Brandt

A Toyo Setal Empreendimentos – que atua em estaleiros – negocia os termos finais de um amplo acordo de cooperação na Lava Jato. É a primeira empresa citada na investigação sobre corrupção, desvios e distribuição de propinas para políticos na Petrobrás que se dispõe a colaborar com a Justiça e o Ministério Público Federal.

Simultaneamente, um dos executivos da Toyo Setal decidiu fazer delação premiada – será a quarta delação no âmbito da mais espetacular operação da Polícia Federal.

No intrincado jogo de xadrez da Lava Jato, a leniência da Toyo e a delação de um de seus dirigentes põem em estado de alerta as maiores empreiteiras do País. Elas estãoi acuadas e buscam uma estratégia jamais adotada, um grande acordo de leniência com a Procuradoria Geral da República. “Vamos fazer desse limão uma limonada”, disse uma autoridade ao ser consultada sobre a possibilidade do acordão.

Segundo o ex-diretor de Abastecimento da estatal petrolífera, Paulo Roberto Costa, as gigantes da construção formaram um cartel que se apoderou dos maiores contratos da Petrobrás no período em que ele ocupou o cargo (2004/2012). A Toyo Setal estaria entre elas.

A Toyo vai furar a antiga parceria e poderá revelar quem ganhou e quanto ganhou.

O passo decisivo para a Toyo fazer a cooperação foi dado nesta sexta feira, 31, quando o criminalista Antônio Sérgio de Moraes Pitombo protocolou na Justiça Federal em Curitiba – onde estão em curso 12 ações penais da Lava Jato – petição em que substabelece três procurações para a criminalista Beatriz Catta Preta.

As procurações referem-se a três pessoas jurídicas vinculadas à Toyo Setal que são alvos de inquéritos da Polícia Federal.

“Houve uma mudança de estratégia e eu respeito a decisão da empresa e dos dirigentes da Toyo”, declarou Pitombo. “Hoje (ontem, sexta, 31) substabeleci as procurações para a Beatriz (Catta Preta). Achei mais conveniente renunciar porque eles (a empresa e os dirigentes da Toyo) entenderam que o caminho deve ser outro (o da delação). É uma nova tendência. Não tenho nada contra.”

Quando Catta Preta entra em uma demanda é porque o investigado já deu tudo por perdido e admite passar longa temporada atrás das grades.

A saída é a delação premiada. No caso da empresa, a cooperação pode livra-la de altas sanções econômicas e do carimbo da inidoneidade que a exclui do mercado.

Catta Preta é a advogada que nos últimos anos especializou-se na condução de acordos de cooperação.

Das mãos e da cabeça dessa advogada saem peças que delegados da PF e procuradores da República prestigiam, porque pregadores da delação, mas que são repudiadas pela maioria dos grandes advogados do País.

Catta Preta foi o artífice da primeira delação da Lava Jato, de autoria de Paulo Roberto Costa – em seu relato ele aponta 32 parlamentares, entre deputados e senadores, que teriam sido contemplado com propinas; citou, ainda, pelo menos 4 partidos, PT, PMDB, PP e PSDB, como destinatários de valores desviados de contratos da Petrobrás.

Depois de Costa entrou em regime de delação o doleiro Alberto Youssef, defendido pelo criminalista Antonio Figueiredo Basto.

Na semana passada, Catta Preta voltou à cena ao conduzir tensas negociações que levaram à terceira delação da Lava Jato, desta vez do empresário Julio Camargo, que agia em nome da Toyo Setal.
Agora, é a vez da própria Toyo e de um de seus diretores abrirem o jogo.

Catta Preta age para que a empresa acerte as bases do primeiro acordo de cooperação e para que um de seus executivos assine a quarta delação do caso.

A Toyo Setal, que Julio Camargo representava, realiza atividades de projeto, construção e montagem na modalidade de EPC (Engenharia, Suprimentos e Construções), em unidades industriais, nos segmentos de óleo e gás, petroquímica, química, mineração, infraestrutura, plantas de geração de energia e siderurgia.

A Toyo trabalha também com estaleiros, na fabricação e serviços de construção de módulos para plataformas offshore, incluindo unidades de geração de energia elétrica, de compressão de gás e de processamento de petróleo.
A Toyo Setal foi apontada por Paulo Roberto Costa, em interrogatório na Justiça Federal, como integrante do cartel de empresas que se apossou dos contratos bilionários da Petrobrás.

O doleiro Youssef listou treze grandes empresas como integrantes do conluio, entre elas a Toyo Setal.

A Toyo Setal não se manifestou sobre a cooperação que decidiu fazer na Lava Jato. A reportagem insistiu durante três dias para obter declaração da empresa, o que não ocorreu.

A criminalista Beatriz Catta Preta também não se manifestou.

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