‘Toti, chama o Levy para trabalhar com a gente e o Meirelles’, diz sobrinho a Palocci

‘Toti, chama o Levy para trabalhar com a gente e o Meirelles’, diz sobrinho a Palocci

Rastreamento da Operação Omertà identificou mensagem de dezembro de 2015 pelo WhatsApp de André Palocci para seu tio Antonio Palocci, sugerindo a contratação do hoje ministro da Fazenda e do ex-ministro do governo Dilma, o que não ocorreu

Mateus Coutinho, Julia Affonso e Fábio Serapião, enviado a Curitiba

26 Outubro 2016 | 04h00

Ao analisar o material apreendido nas buscas da Operação Omertà – 35.ª fase da Lava Jato deflagrada no dia 26 de setembro e que prendeu o ex-ministro Antonio Palocci – a Polícia Federal encontrou uma citação ao ministro da Fazenda Henrique Meirelles.

O sobrenome do ministro aparece em trocas de mensagens de WhatsApp entre Palocci e seu sobrinho André Palocci, sócio do ex-ministro petista na empresa de consultoria Projeto, em 18 de dezembro de 2015, ainda durante o governo Dilma Rousseff e quando Meirelles atuava no setor privado, não ocupando cargos no governo.

Naquele dia, o então ministro da Fazenda Joaquim Levy anunciou sua saída.

“Toti, chama o Levy para trabalhar com a gente e o Meirelles”, diz André ao seu tio.

“Pense nisso”, segue André

“Boa, mas tem q dar uns dias pra ele descarregar”, responde Palocci.

O breve diálogo chamou a atenção da PF por sugerir que Meirelles poderia ser convidado para trabalhar com Palocci e seu sobrinho. Isso não ocorreu. Meirelles foi presidente do Banco Central nos dois mandatos do ex-presidente Lula, de 2003 a 2010 e assumiu a Fazenda do governo Temer neste ano.

Joaquim Levy, por sua vez, também não integrou a equipe de Palocci. Ele deixou o País após sair da Fazenda e assumiu o cargo de diretor do Banco Mundial em 11 de janeiro de 2016.

Um dos principais ministros dos 13 anos do PT à frente do governo federal, Antonio Palocci ocupou a Fazenda no primeiro mandato de Lula (2003 a 2006) e a Casa Civil no primeiro mandato de Dilma, em 2011.

 

paloccimeirelles

Envolto em polêmicas, ele renunciou aos dois cargos e, além das atividades públicas, passou a trabalhar em 2006 na sua empresa Projeto Consultoria.

A empresa também está na mira da Lava Jato por suspeita de ter sido utilizada para lavar dinheiro de propina que Palocci teria recebido por supostamente atuar para beneficiar a Odebrecht no governo federal.

Nesta segunda-feira, 24, o ex-ministro foi indiciado pela Polícia Federal por crime de corrupção passiva. O empreiteiro Marcelo Odebrecht e outros quatro investigados foram indiciados por corrupção e lavagem de dinheiro no mesmo inquérito decorrente da Operação Omertà.

Segundo a investigação, Palocci era o ‘o verdadeiro gestor de pagamentos de propina realizados pela Odebrecht’ identificados pelas planilhas intituladas como ‘Italiano’, do Setor de Operações Estruturadas – nome oficial do ‘departamento de propinas’ da empreiteira revelado pela Lava Jato.

No indiciamento de Palocci, a PF apontou que o ex-ministro teria solicitado ao menos R$ 128 milhões em pagamentos ilícitos da Odebrecht por meio de diferentes intermediários e de forma a atender os interesses do PT também.

Nestes pagamentos, a PF aponta até o acerto da empreiteira, via caixa 2, com os marqueteiros das campanhas de Lula (2006) e Dilma (2010 e 2014) João Santana e Mônica Moura no exterior.

Os pagamentos foram solicitados, segundo a investigação, em meio à atuação do ex-ministro em benefício à Odebrecht no governo federal, que ia desde a ajuda para conseguir contratos para a produção de sondas do pré-sal até a edição de Medidas Provisórias que poderiam beneficiar o grupo empresarial.

“Muito embora tenha deixado de exercer função pública a partir da metade de 2011, continuou, em virtude dos cargos que exerceu e da posição de relevo dentro do Partido dos Trabalhadores, a gerir e a receber recurso de propina da Odebrecht, assim como a interferir em seu benefício”, assinala o delegado Filipe Hille Pace no despacho de indiciamento.

COM A PALAVRA, O MINISTRO DA FAZENDA HENRIQUE MEIRELLES:

Confira abaixo as respostas do ministro aos questionamentos da reportagem:

ESTADÃO – O ministro já trabalhou com Antonio Palocci ou Andre Palocci? Se sim, quando? Onde e por quê?

MEIRELLES: Não.

ESTADÃO – Em caso negativo, o que o ministro tem a dizer sobre as mensagens?

MEIRELLES: O ministro desconhece o assunto.

ESTADÃO -Houve alguma negociação ou oferta de trabalho para Meirelles atuar junto com Palocci e Andre nas atividades de consultoria da Projeto ou, eventualmente, em alguma outra atividade desenvolvida pelo ex-ministro? Se sim, qual e por quê?

MEIRELLES: Não houve.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA JOSÉ ROBERTO BATOCHIO, DEFENSOR DE ANTONIO PALOCCI E ANDRÉ PALOCCI:

O advogado José Roberto Batochio disse que os ex-ministros da Fazenda Henrique Meirelles e Joaquim Levy nunca foram contratados, nem sequer consultados, para trabalhar na Projeto Consultoria, de Antonio Palocci.

Segundo o criminalista, André Palocci, sobrinho do ex-ministro, apenas transmitiu uma ideia para o tio.

“Sempre que ocorria uma ideia no sentido de agregar valores e melhorar a empresa para a qualidade e prestação de serviços André Palocci imediatamente utilizava os serviços de mensagens para transmitir essa ideia ao seu tio”, disse Batochio.

O criminalista disse que André Palocci confirmou que ‘realmente mandou a mensagem’ ao ex-ministro, sugerindo a contratação de Meirelles e Levy.

“Primeiro, que Meirelles estava fora do governo, segundo que Levy estava saindo”, destacou Batochio, após conversar com André Palocci e ouvir dele sua versão.

“O André imaginou que a Projeto poderia aumentar seu prestígio e a capacidade de prestação de serviços com essas duas adesões de trabalho”, observou Batochio.

Segundo o advogado, Antré Palocci disse a ele. “Por esta razão mandei email da minha cabeça, pensando no aperfeiçoamento, no crescimento da empresa.”

“Antonio Palocci nunca respondeu”, disse o criminalista.