Tosca, triste, trôpega

Tosca, triste, trôpega

José Renato Nalini*

16 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Não há de soar estranho o sentimento de forte decepção com a República brasileira. Antes de adotar o novo regime, o  Estado brasileiro era uma nação estável e formalmente coesa em torno a um estadista injustiçado, o Imperador Pedro II. Autoridade tão respeitada no mundo civilizado, que chegou a ser eleito Presidente dos Estados Unidos, num dos Estados em que não havia necessidade de candidatura e o povo escolhia aquele que entendia ser o melhor.

Libra esterlina, dólar americano e a moeda tupiniquim equivaliam em valor. Havia, é claro, um enorme contingente de analfabetos. Mas não por omissão do Imperador. Ele considerava o magistério a mais nobre das missões. Assistia às aulas no Colégio Pedro II, participava dos debates, fazia questão de integrar bancas de avaliação. De seu próprio bolso, financiou muitos brasileiros que, sem isso, não teriam tido condições de estagiar no exterior.

Fez um empréstimo junto a um banco inglês, adquiriu vasta área que fora um cafezal e estava abandonada, reflorestou por sua conta. Só por isso o maltratado Rio de Janeiro possui hoje a Floresta da Tijuca. Conduta surreal, quando se considera a postura de autoridades que incentivam o extermínio da cobertura vegetal em todos os biomas.

Não possuía mordomia estatal. Os empregados que o serviam e à sua família, eram pagos de seu bolso. A Imperatriz Tereza Cristina cozinhava para a família e para a criadagem. Como boa italiana, dominava as artes domésticas.

Nada disso impediu que um grupo de insatisfeitos o destronasse, o fizesse deixar o Brasil à noite, sem se despedir, sem poder levar seus pertences. Apenas levou areia de Copacabana, que mantinha sempre consigo e que ficou no seu esquife, dois anos depois. Não resistiu ao exílio, longe da única pátria que conhecia, pois nasceu no Brasil. Nada obstante residisse no Hotel Bedford, próximo à Madeleine, lugar nobre de Paris, foi breve o seu desterro. Estava pleno de razão, quando exclamou, na madrugada de 15.11.1889: “Eles estão loucos”. Assim permaneceram.

E a República brasileira? O que veio a ser?

Uma sucessão de politicagens, com os eleitos se preocupando exclusivamente com seus próprios benefícios. A política partidária se converteu em profissão, quando deveria ser um plus ao desempenho de atividades produtivas, assim como já foram um dia as Câmaras Municipais. Cidadãos prestantes que ofereciam uma noite por semana para cuidar do interesse público. Clama aos céus o custo dos Poderes estatais, numa pátria em que milhões passam fome e outros milhões não têm onde morar, emprego ou perspectiva de vida digna.

Houve alguns poucos estadistas que chegaram à Presidência da República. Já exaltei Campos Salles, Prudente de Moraes, Rodrigues Alves. Mas o retrospecto republicano parece que segue uma linha descendente. Prefere degringolar. Vai piorando a cada gestão.

O Parlamento, que foi concebido como “caixa de ressonância das aspirações populares” se tornou aquilo que cronistas bem respeitados chamam de função “para lamentar”.

Duas Casas Legislativas – o Senado e a Câmara – parecem só se ocupar de Fundos Partidário e Eleitoral, de tornar mais fáceis as regras para a perpetuidade nos cargos, criando castas familiares que se sucedem numa eficiente fórmula de empolgar o Poder e de gerir a coisa pública destinada a servir ao grupo.

Vergonhas como o “Orçamento Secreto”, a venda do mandato para fins de reeleição – a matriz da pestilência – somente evidenciam que a República Brasileira não tem muito do que se orgulhar nessa experiência que não se mostrou exitosa.

A cultura popular ainda está afeiçoada ao estilo monárquico. Daí a majestade preservada aos detentores de cargos republicanos, a tática das homenagens, a reverência servil de quem possui espinha dorsal complacente.

A pandemia serviu para escancarar a miséria brasileira. Fome no supridor de comodities para todo o planeta. Desmatamento cruel. Invasão de terras demarcadas e continuidade no genocídio étnico. Indígenas, negros e outros excluídos ou invisíveis continuam a figurar no dantesco rol das vítimas.

Nada prenuncia um horizonte menos plúmbeo. A chave para a solução de todos os problemas brasileiros seria uma educação consistente e sólida. Mas não existe interesse em promovê-la. Pois o povo se converteria na massa crítica, incapaz de continuar cega e surda perante o desvario. O Brasil surreal já não surpreende o mundo civilizado, que o jogou à condição de pária ambiental, pária no trato das drogas, pária na defesa dos desvalidos.

Até quando? Até que a indignação surta efeito e mostre ao brasileiro que a única vítima das más escolhas é ele próprio.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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