Tóquio 2020: evento histórico perdeu oportunidade única

Tóquio 2020: evento histórico perdeu oportunidade única

Iran Coelho das Neves*

31 de julho de 2021 | 10h30

FOTO: ISSEI KATO/REUTERS

Com encerramento marcado para o próximo dia oito, os Jogos Olímpicos de Tóquio entram para a história das olimpíadas como evento que, realizado durante a maior epidemia a assolar o planeta em mais de um século, traz em sua própria designação oficial – ‘Tóquio 2020’ – a síntese do desencontro entre o calendário original e a dura realidade.

O adiamento de um ano não foi suficiente, como se supunha, para que o maior acontecimento esportivo da Terra se desse num momento em que a Humanidade já estivesse livre do suplício global causado pelo Sars-Cov-2, o novo coronavírus. Não foi assim.

Contudo, ainda que boa parte da comunidade científica e a maioria da população do país-sede fossem contrárias a sua realização neste momento, a Olimpíada de Tóquio, mesmo antes de seu término, se consagra como evento-síntese de um instante ímpar da sociedade contemporânea.

Sem a presença de público e sujeitos a severos protocolos sanitários, estes Jogos Olímpicos celebram, se não a vitória total – que parece ainda distante – da Ciência sobre o novo coronavírus, o triunfo da esperança. Mobilizados pelo sonho olímpico, 11.687 atletas de 204 países (atletas russos e refugiados disputam sob a bandeira de comitês específicos) não só desafiam os limites físicos e as fronteiras da habilidade.

Acima das conquistas individuais e coletivas que a cada quatro anos consagram atletas ao panteão habitado por semideuses do desporto, os Jogos de Tóquio entram para a história como a Olímpiada em que, mesmo ainda em meio à pandemia que já ceifou mais de quatro milhões de vidas, a Humanidade é capaz de renovar a esperança em dias melhores.

Desde que se realizou em Atenas, em 1896, a primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, inspirados pelo ideal do Barão de Coubertin – aproximar os povos através do esporte em benefício da paz – o evento só foi cancelado em três ocasiões, ironicamente em consequência das duas guerras mundiais (1914-18 e 1939-45).

Diante do que, o adiamento, por um ano, dos Jogos Olímpicos de Tóquio, motivado pela catástrofe sanitária que aflige a Humanidade como um todo, teve uma carga simbólica extraordinária: pela primeira vez uma olimpíada foi suspensa não por uma conflagração entre nações, mas porque literalmente todas as nações da Terra estavam – e ainda estão – em guerra contra um inimigo comum e potencialmente letal.

Porém, nem tudo é celebração do espírito olímpico nestes Jogos de Tóquio. As circunstâncias dramáticas em que são realizados deveriam ter inspirado o Comitê Olímpico Internacional (COI) a se unir à Organização Mundial da Saúde (OMS) e a outras agências multilaterais para cobrar maior solidariedade dos governos de países ricos em relação à oferta de vacinas às nações mais pobres.

Não condiz com o verdadeiro espírito olímpico que muitas delegações, diligentemente vacinadas e seguidamente testadas durante os Jogos, retornem a seus países e encontrem apenas uma parte ínfima de seus patrícios imunizada contra a covid-19.

Se os Jogos Olímpicos irmanam as nações em torno dos ideais de paz e de solidariedade preconizados pelo Barão de Coubertin, constitui indesculpável negligência humanitária que não tenham sido valorizados como oportunidade imperdível para amenizar as trágicas discrepâncias entre os países mais ricos – que já programam a aplicação de dose extra de reforço – e as nações pobres que não têm como adquirir o imunizante para todos os cidadãos.

Era necessário muito mais do que a simples presença do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, em Tóquio, onde defendeu que a Olimpíada fosse “fonte de unidade e esperança para alcançarmos igualdade de vacina e encerrarmos a pandemia.”

Lamentavelmente, o enorme significado – não só desportivo, mas igualmente humano e político – destes Jogos Olímpicos, realizados em circunstâncias tão difíceis para toda a sociedade global, não foi capitalizado como momento único para defender a cooperação transnacional em benefício da imunização planetária contra a covid-19.

*Iran Coelho das Neves, presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul

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