Token, uma nova receita do futebol

Token, uma nova receita do futebol

Guilherme Santos Macêdo e Uri de Sousa Wainberg*

17 de abril de 2021 | 05h00

Guilherme Santos Macêdo e Uri de Sousa Wainberg. FOTOS: DIVULGAÇÃO

A pandemia da Covid-19 agravou a situação financeira de praticamente todos os setores de atividade. O mundo do futebol não saiu ileso, ainda mais com a ausência dos torcedores nos estádios. Além da falta de interação dos clubes com sua base de fãs, resultou em um enorme impacto financeiro em já combalidas contas.

Em 2019, o endividamento dos 20 clubes de maior faturamento do país era muito elevado – acima de R$ 8 bilhões –, comprometendo a capacidade de investimento no futebol.

Crises econômicas, como a trazida pela pandemia, costumam fomentar novas estratégias – ao menos para quem sobrevive, pois retira o agente econômico do marasmo, utilizando-se de remédios e soluções de mercado. Porém, os clubes de futebol, associações civis, não podem recorrer ao lançamento de ações, como as companhias abertas, ou pedir recuperação judicial. Neste caso, inclusive, o Figueirense (SC) conseguiu dar entrada porque recorreu ao Tribunal de Justiça.

Felizmente existem tecnologias emergentes que muitas vezes já se avizinham, mas que ainda não foram convidadas a entrar. E a criação de fan tokens de clubes de futebol no protocolo blockchain é um meio de solução da crise econômico-financeira, com grande potencial para cativar a base de fãs e gerar receita ao clube emissor.

Sanear o passivo dos clubes é um trabalho hercúleo no atual cenário, onde é cada vez mais difícil atrair investimentos devido à insegurança jurídica e ao alto risco do investimento quando divorciado da gestão eficiente. Daí a importância de abordar a insolvência dos clubes de futebol sob a ótica disruptiva, buscando soluções pouco exploradas, mas que vêm sendo testadas no Velho Mundo.

O processo de tokenização se pauta na conversão de ativos tangíveis, intangíveis, fungíveis ou infungíveis em ativos digitais. Entre os exemplos estão moedas, obras de arte, direitos creditórios, valores mobiliários, imóveis, propriedade intelectual e commodities. A transferência para terceiros adquirentes é realizada por meio do protocolo blockchain a partir da realização de uma ICO (Oferta Inicial de Moedas), cujo mecanismo de verificação de existência do ativo é o token gerado no procedimento de captação de recursos.

A consequência direta do uso do blockchain refere-se à não-exigência de órgãos intermediários entre as partes: trata-se de rede descentralizada, o que implica menos burocracia e custo menor. A partir da tokenização dos clubes, eles teriam seus títulos negociados ao redor do globo, sem necessidade da transformação em clube-empresa ou de um braço financeiro – como fundo de investimentos ou Sociedade de Propósito Específico – por trás da operação.

Não se trata de mais um produto vendido para um torcedor fanático ou admirador, mas sim a real possibilidade de capilarizar as finanças do time e expandir sua capacidade de faturamento, captando recursos nos quatros cantos do planeta, 24 horas por dia, o que é impossível a partir de uma IPO (Oferta Pública Inicial). Na outra ponta, o adquirente do token de utilidade, que outorgará acesso a um produto ou serviço, poderá desfrutar de benefícios. Grandes clubes europeus vêm adotando esta estratégia para gerar receitas, emitindo um utility token no protocolo blockchain, os fan tokens. Entre eles, Barcelona, Juventus, Milan e Paris Saint-Germain.

Vale ressaltar que os utility tokens não são desenhados como instrumentos de investimento, de modo a inexistir promessa de valorização, aceitação ou manutenção de seu valor em mercados, subsistindo em lógica similar aos itens colecionáveis, cujos entusiastas pagam soma elevada pelo produto exclusivo. A valorização ocorrerá com o crescimento do ecossistema através da intensificação do interesse de todos os participantes da rede nos produtos e serviços oferecidos mediante a aquisição do utility token, captando, assim, mais usuários em um ciclo virtuoso.

Constata-se, portanto, que os fan tokens não estão atrelados necessariamente ao desempenho da equipe e aos resultados da temporada, mas sim ao potencial de utilização do token, com ofertas e recompensas únicas e exclusivas, que tendem a aumentar o desejo pelos tokens. O fan token democratiza o clube de futebol para além do quadro associativo ao intensificar sua interação com o torcedor e o populariza no exterior, internacionalizando a marca. Trata-se do futebol e suas finanças na era digital, ou melhor, na era do blockchain.

A experiência internacional mostra que a criação de um ativo digital, por meio da tokenização dos clubes de futebol no protocolo blockchain, tem enorme potencial para captar investimentos em um ambiente descentralizado, seguro e transparente. É hora, portanto, de os clubes buscarem profissionais que tratem muito bem a bola, mas também outros, para atuar fora das quatro linhas, com expertise em ativos digitais.

*Guilherme Santos Macêdo e Uri de Sousa Wainberg são sócios do escritório Marcello Macêdo Advogados

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