Todos têm razão

Todos têm razão

Fernando Goldsztein*

16 de julho de 2020 | 10h03

Fernando Goldsztein. Foto: Cristiano SantAnna/indicefoto

Tempos difíceis. De um lado, os defensores do isolamento mais radical e, do outro, os da maior liberdade da economia (evidente que seguindo todos os protocolos de segurança). Economia, diga-se de passagem, já combalida por quatro meses de restrições. Você sabe qual lado está certo? Se souber me conte. Isso me lembra uma antiga parábola judaica. Um rabino recebeu dois homens que o procuraram para arbitrar sua demanda. Após ouvir sua queixa, o rabino disse ao primeiro homem: “Você tem razão”. Ao ouvir a réplica do segundo querelante, disse: “Você tem razão”. Os dois homens foram embora desapontados e furiosos com o rabino. Quando o rabino voltou para a sala após despedir-se dos homens, Sara, sua esposa, muito respeitosamente perguntou a ele como poderia ser que dois homens com versões e opiniões tão divergentes poderiam ter razão ao mesmo tempo. O rabino dirigiu a ela um olhar compreensivo e disse: “Você tem razão”. Essa parábola, apesar de muito antiga, é perfeita para o momento. Evidente que a vida está em primeiro lugar e medidas de impacto precisam ser tomadas para a contenção do vírus. Porém, por outro lado, existe também comprovação científica de que a recessão econômica piora o sistema de saúde em países com renda baixa e média como o Brasil. Isso por terem um mercado de trabalho fortemente informal e frágil sistema de proteção social. Segundo artigo na revista Lancet, para cada um por cento de crescimento do desemprego em economias como a nossa, aumenta a mortalidade em meio por cento para cada cem mil habitantes. Este é o paradoxo que vivemos. Não existe uma fórmula conhecida para combater esta pandemia. Portanto, os governantes vão errar, não tem jeito. Acertará quem errar menos. No caso do Rio Grande do Sul, o número de mortes por cem mil habitantes é dos mais baixos. É claro que o fato de termos uma população mais instruída do que a média nacional contribuiu para o cumprimento das regras de isolamento, proteção e higiene. Ocorre que, naturalmente, como exposto acima, também houve erros. A tentativa precoce de achatar a curva fazendo o isolamento ainda no verão, parece ter sido um deles. Hoje faríamos diferente, pois entramos no inverno com uma prevalência do vírus baixíssima, UTIs quase lotadas em função de outras doenças respiratorias relacionadas ao frio e uma economia enfraquecida por 100 dias de confinamento. Também erramos ao não fazer hospitais de campanha ou mais leitos de UTI. O fechamento da economia (exatamente por não termos estes leitos) está gerando uma perda fiscal enorme tanto a nível estadual como municipal. Não poderíamos ter feito ainda mais leitos nestes quatro meses com uma fração destes recursos que deixamos de arrecadar? Precisamos também acelerar a realização dos testes RT-PCR e o rastreamento dos contatos. Isso sem falar na testagem em massa que é a única forma de entender a velocidade de propagação e a dispersão geográfica do vírus em tempo real, o que é a base para tomada de decisões. Além, é claro, de detectar doentes ainda sem sintomas, isolá-los e tratá-los precocemente (antes de necessitarem hospitalização). Infelizmente ainda teremos que conviver um bom tempo com esta pandemia. Precisamos agir e corrigir rumos. Economia e saúde estão entrelaçados. Não existe um sem o outro. Com um monitoramento eficiente, seria possível, por exemplo, decidir quais negócios são seguros e podem reabrir e quais precisam ainda se manter fechados. Não podemos “simplesmente” fechar tudo. Precisamos sim salvar vidas mas também minimizar o impacto da recessão que, inevitavelmente, se abaterá sobre nós. E terá, sem dúvidas, consequências nefastas para as empresas, os empregos, a arrecadação de impostos e,inclusive, para a própria saúde pública.

*Fernando Goldsztein, empresário

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