Todos na mesma página

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Leonardo Ozorio*

28 de dezembro de 2020 | 04h30

Leonardo Ozorio. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em qualquer empresa, seja ela pequena ou uma grande corporação, o desafio de se atingir as metas e os resultados esperados depende de uma série de variáveis. Entre elas, sem dúvida, uma merece destaque: o alinhamento entre todos gestores, com acompanhamento contínuo do desempenho. Podemos estender este contexto também para as fundações e entidades de previdência complementar e a gestão de planos de benefícios.

Os fundos de pensão têm como base de sustentação a relação entre ativos e passivos. De modo geral, o retorno proporcionado pela gestão de investimentos (ativos) tem de ser suficiente para cumprir com as obrigações do fundo (passivos). Neste cenário, há dois fatores de risco que são extremamente relevantes: o risco de liquidez e o de solvência. O primeiro avalia a capacidade do fundo de, no momento exato, ter todos recursos necessários para honrar com os seus passivos/compromissos. Já o risco de solvência avalia possibilidade de desequilíbrio na relação entre os ativos e os passivos de cada plano de benefícios (consideradas algumas premissas).

Apesar de o risco de liquidez ser até mais preocupante do que o de solvência (uma vez que este eu consigo ajustar ao longo do tempo), os dois envolvem ativo e passivo. Ou seja, não tem como fazer uma boa gestão de um fundo de previdência sem olhar simultaneamente para esses dois pilares. Ativo e passivo são as principais variáveis para o equilíbrio de qualquer carteira e para uma eficaz gestão dos riscos de liquidez e solvência.

Encontrar um profissional de investimentos que entenda de ciências atuariais ou um atuário que entenda de investimentos não é algo trivial. Assim, nas entidades, o ativo é acompanhado pelo gestor de investimento e o passivo pelo atuário. No entanto, o grande dilema – e que acaba por influenciar a gestão das carteiras – é que esses profissionais, geralmente, não têm uma comunicação fluida.

Tradicionalmente, quando há um desequilíbrio entre ativo e passivo, o gestor de investimentos busca formas de aumentar o retorno dos ativos. Se, há alguns anos, o gestor conseguia retornos em torno de 13% ou 14% ao ano sem muito esforço, hoje, o contexto é bem diferente. No cenário econômico atual, com uma taxa de juros básica da economia em 2% ao ano, trata-se de uma tarefa muito mais que desafiadora. Aumentar o retorno significa poder ampliar – e muito – a exposição aos riscos financeiros (p.e. mercado e crédito), principalmente em um mercado financeiro doméstico com potencial de diversificação menor que outros internacionais.

As fundações precisam estar cientes de que é possível encontrar um hedge natural dentro do ALM (Asset-Liability Management) para reequilibrar esta balança. A correção não precisa vir necessariamente do retorno. Pode-se encontrar alternativas nas avaliações conjuntas com o atuário, ou seja, com a avaliação do passivo. É preciso entender, de fato, se este descasamento acontece única e exclusivamente pela queda do retorno dos investimentos ou se há fatores envolvendo o passivo que precisam ser ajustados ao novo cenário. É possível rever o tamanho do passivo, questionar os benéficos e, por exemplo, reavaliar a tábua de mortalidade utilizada de forma que a combinação entre ativo e passivo esteja em equilíbrio. E, para fazer valer este hedge natural, é preciso apenas fomentar a interação e fazer o simples bem feito.

As duas áreas precisam entender como as decisões de um lado influenciam o desempenho do outro e vice-versa. O atuário deve compreender que hoje é mais difícil atingir o retorno esperado e o gestor de investimentos precisa conhecer a evolução do passivo. Uma forma fácil e rápida de promover esta aproximação é o atuário participar do comitê de investimentos. Neste comitê, o atuário conhecerá mais sobre a estratégia de investimento e o gestor de investimento conhecerá os estudos do passivo.

Além disso, é importante ressaltar que, ao contrário do que se pensa, esta não é uma questão que envolve apenas os planos BD. A discussão também é extremamente importante para os planos CD. As entidades são obrigadas a disponibilizar para os participantes dos planos CD simuladores de investimentos. Ou seja, tudo o que é necessário avaliar no coletivo para um plano BD, poderia (ou deveria) ser disponibilizado também no plano CD, porém de forma individual.

Todo este contexto é o que acreditamos e vivemos. A nossa área de Previdência possui dois diretores: uma atuária e um economista. E desenvolvemos um simulador exatamente para estas necessidades. Acreditamos que esta combinação, juntamente com a nossa metodologia de ALM multiperíodo e estocástico, são fundamentais para garantir bons resultados.

O importante para um plano de benefícios não é buscar o maior retorno possível para a carteira. Mas sim buscar a melhor relação risco e retorno, minimizando os riscos de solvência e liquidez e definindo uma carteira ótima para cada ano. E o primeiro passo para isso é apenas colocarmos todos na mesma página.

*Leonardo Ozorio é diretor da área de Previdência, com foco em Investimentos e Consultoria, da LUZ Soluções Financeiras

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