Todo sentimento

Todo sentimento

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay*

19 de junho de 2021 | 19h56

Chico Buarque participa de manifestação contra o governo Bolsonaro. Foto: Divulgação/MST/19.06.2021

500 mil mortes!

Não “vai passar”!!!

O Chico não merecia isso no dia do seu aniversário.

Todos os da minha geração, todos não, os nossos, sabem o que é o Chico nas nossas vidas. São vários “Chicos”. Ouso dizer que há algo de Fernando Pessoa naquela indefinição, ou será definição, dessa personalidade apaixonadamente complexa e simples. Um Fernando Pessoa que canta, em nosso português, os nossos amores, os nossos sonhos, as nossas dores, as nossas angústias e as nossas indignações. Que nos define. E nos torna ardentemente vivos. Eu já fui o Chico em diversos heterônimos. E sempre foi um charme ser o Chico. Por timidez, sim o Chico é tímido como eu, não devo contar as histórias. Até porque ele nem sequer as conhece e a frustração seria o derrame de um copo até então sem mágoas.

Ao ver o Chico hoje na manifestação contra o fascismo, eu tento o quase impossível: aumentar minha admiração de fã que tenta ter lucidez. Fã não tem que ter lucidez. Contudo, é muito instigante ver esse traço corajoso de quem está sempre se posicionando. Andando nas ruas. O seu andar hoje nas ruas, quando o Brasil chega a 500 mil mortos, é  letra e música. Fala por si só. É, de novo, o Chico falando por nós. Outra vez. Sempre.

Chico Buarque desembarca no Rio em 20/3/1970, após autoexílio na Itália. Foto: Acervo/ Estadão

O seu ir às ruas é um grito desumano, uma maneira de ser escutado. E, nós sabemos, amanhã há de ser outro dia. E temos certeza de que eles não terão a fineza de desinventar a tristeza, mas nós iremos cobrar com juros toda a lágrima rolada. E voltaremos a perguntar o que que a vida vai fazer da gente. Na certeza de que para sempre é sempre por um triz, eu reafirmo que é inútil dormir que a dor não passa. E vamos às ruas, porque está provado, quem espera nunca alcança. Mesmo sabendo que não vale a lei que determina que a gente era obrigado a ser feliz. E, carinhosamente, reconhecendo que este já devia ser o tempo da delicadeza, no qual já não se diz nada e nada acontece, mas que se segue, encantado, ao lado dos nossos amores.  

Por tudo isso, vamos nos jogar no embate contra o fascismo. Com nossos olhos embotados de cimento e de lágrima, vamos beijar nossas mulheres e nossos filhos como se fossem os últimos e únicos. E vamos, ao contrário da música, afobar-nos, pois é pra já, não é como o amor, que nunca tem pressa, que pode esperar. Nós estamos falando da liberdade, da vida, da nossa dignidade, enfim. Esta é uma hora de ver que tem mais samba no porto que na vela. E que não dá para esperar, como o Pedro pedreiro, o apito do trem, a festa, a sorte, a morte. 

Mas é preciso sempre dizer para o Chico que ele é o nosso companheiro de todas as horas da vida. Como Caeiro, no guardador de rebanhos, que dizia que ser poeta sempre foi uma maneira de estar sozinho. Ou, como o Mia Couto, que contava que o tempo do amor era ainda cedo, que este não era o sossego que ele queria, um exílio de tudo, uma solidão de todos. Ou, como o velho Manoel de Barros, que só usava as palavras para compor o silêncio. 

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O advogado criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Foto: André Dusek/Estadão

Obrigado, Chico, que optou por não estar sozinho, como Caeiro, que, como Mia Couto, nunca optou pelo sossego, e que rompeu todos os silêncios com as palavras e com a sua presença. 

Ainda é hora de resistência. Para nós, parece que o tempo sempre é ainda. Como conta o poeta Leão de Formosa: 

“Ainda é o advérbio lindo da esperança, que a palavra trema dentro da frase infinda. Nos lábios da criança o sorriso é ainda. Ainda flor é a rosa. Ainda paz é o poema.” 

Por isso, vamos perder a noção da hora, romper com o mundo e queimar os navios. Vamos confundir muito as nossas pernas e deixar o sangue errar de veia, perder-se. Com a certeza de que, mesmo na bagunça dos nossos corações, nós estaremos juntos sempre. Não será preciso nos fazer de tontos e nós teremos a mesma cara ao sair. A cara da liberdade, da igualdade, de um mundo onde o paletó enlaça o vestido ou o vestido veste o paletó, mas seguem juntos com respeito e esperança. Esse é o nosso sonho. Como diz a letra: pela paz derradeira que enfim vai nos redimir: Deus lhe pague, Chico.

*Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay, é advogado criminalista

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